RISO – Os padecimentos por que passara jamais a desanimaram. - persistia na batalha da sobrevivência. Mantinha a esperança de dias melhores. Guardava, no âmago, a alegria. Algum dia poderia expressá-la fora da prisão do monturo, onde Maria Luiza, analfabeta, tirava, a duras penas, o seu sustento.
Quando soube que o seu filho, Alcides, primeiro lugar entre os alunos das escolas públicas, tinha passado no vestibular de Biomedicina, na Universidade Federal de Pernambuco, liberou uma infinidade de risos. Esses, aprisionados, quem sabe, desde a sua mísera infância, ou já no ventre materno.
Num raro momento de felicidade, os risos afloraram, dela e do seu querido menino que viu seus esforços coroados de êxito. Aliás, o jovem aluno universitário nunca perdeu o sorriso, mesmo levando no bolso, deglutindo na mesa, a tristeza e o vazio da miséria. Gente invisível, até então, o país passou a conhecer esses excluídos dos bens da vida, reverenciou-os e os expôs como símbolos.
Mas, o que importava deveras para a mãe de Alcides era vê-lo mais feliz, completamente feliz com a realização de seu sonho, bem próximo - formar-se, este ano. Ah, quem não sabe sobre o contentamento da mulher em parir e cuidar de um filho??!!
PRAN TO – Alcides do Nascimento Lins (22) não foi fabricado, ele se construiu. Morador da Vila Santa Luzia, na Torre, Recife, tornou-se um símbolo também para as outras mães da localidade. Possivelmente, alguma delas disse, ou diria: “Ele é um exemplo para os nossos filhos”.
Em poucos segundos, duas balas, tão pequenas, mas, certeiras e mortíferas, mudaram o curso do futuro biomédico.
Em setembro vindouro, a primavera não será a mesma para colegas, familiares de Alcides, principalmente, a genitora dele e outras sensíveis pessoas conhecedoras da trágica história, comum nesses tempos.
A catadora de lixo se produzia, se arrumava, na expectativa da celebração do menino que saiu de seu teimoso útero e que, agora, tenro adulto, pretendia exercer dignamente a sua profissão e, assim, autorrealizar-se.
Não se preparava, obviamente, para tamanha dor, a perda do filho. Existe alguma outra maior?
O pranto toma assento no seu rosto de mãe.
As lágrimas descem pelo combalido corpo de Maria Luiza e vão juntar-se às das outras mães.
O rio de choros cresce inundando a cidade.
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