Eu, nasci numa cidade pernambucana com ar refrigerado chamada Gravatá e fui registrado com o nome de Carmelo Vitorino da Costa. Adquiri e mudei a dentição na estrondosa cidade de Caruaru. Lá, no ano de 1953, Comecei minha vida acadêmica. Tinha apenas 04/05 anos quando fui entregue por meu pai, quase analfabeto, à Maria Monteiro, professora aposentada que dava aulas particulares na Rua Preta. Naquela possível entrevista, ela fez várias perguntas como: de que eu gostava de brincar; que tipo de história gostava de ouvir; se eu ajudava mais a minha mãe na cozinha ou meu pai na oficina. Tudo anotado, caderno de caligrafia preparado e um lápis Joann Fabber apontado por Expedito, meu saudoso pai.
O que dona Maria não perguntou e nem observou, foi que eu já sabia ler e interpretar - havia passado por minha avó Jovelina e Jacira, pois só assim, poderia ter acesso às revistas de tio Gilberto, exímio desenhista e colecionador de Pato Donald, Mickey, Flash Gordon, Joe Cometa, Fantasma, Super Homem e Mandrake. Na saída, disse-me que queria conversar com pai. No outro dia, a sala já era outra e a professora também. Maria do Carmo era muito bonita, talvez não tivesse 18 anos e as suas primeiras palavras dirigidas a mim, fizeram um positivo efeito e jamais esqueci: "Carmelo, gosto muito de você!". Minha caligrafia era apenas entendível, melhorou com a ajuda carinhosa de uma professora que, além dos ensinamentos, marcou minha vida porque hoje, ao tirar meus óculos, lembro que fora ela quem descobriu que a minha visão não era muito boa. Paralelo aos estudos, naquela cidade "berço da civilização industrial de fundo de quintal do Agreste", que também aprendi com meu pai aos 10 anos, a ser sapateiro: com banca, alicates, turquesas, martelo e facas, profissão que garantia a grana para qualquer coisa. Brincava raramente com pião e bolas de gude, porém, as brincadeiras que mais gostava, era contar e ouvir histórias. Sempre tirei boas notas no Círculo Operário, ganhava prêmios nos finais letivos também, com trabalhos manuais e por bom comportamento e por não ser tímido, falar em eventos e entregar certificados era comigo mesmo.
Na antiga Escola Artesanal de Caruaru, no Auto do Vassoural, passei por cursos profissionalizantes: da alfaiataria até mecânica, tive acesso e, igual ao nosso Presidente, me tornei ainda criança, um "torneiro mecânico". Enfatizo aqui, que as antigas revistas em quadrinhos, deram-me a oportunidade de entrar rapidamente no mundo das coisas. Infelizmente, as crianças de hoje não terão essa oportunidade.
* Nasci em 1949, mas foi registrado como nascido em 1951.
HÁ MEIO SÉCULO
Não lembro bem como era o processo naquela época, mas concluir o período primário na cidade de Juazeiro do Norte-CE., na escola dos Franciscanos. Fiz o "exame de admissão" - o "bicho papão" dos idos 1964, logo em seguida, fui matriculado numa escola particular denominada Sociedade Padre Cícero. Era o mais novo da turma e o mais afoito, mas a fatalidade pairou em nossa família. Meu pai abandonou minha mãe e as coisas não ficaram tão fáceis: havia irmãos menores, situação que exigiu meu trabalho também em períodos noturnos. Fui paulatinamente me desligando dos estudos normais. Passei a fazer cursos por correspondência, os quais poderiam ser administrados nas horas e nos dias de folga. De detetive a eletrônica, passei por desenho, fotografia, motores à combustão interna e outras tantos. Na prática, aprendi tipografia com facilidade na Gráfica Mascote.
Trabalhando como linotipista (atividade substituída atualmente por digitador) no Jornal A Ação na cidade do Crato-CE., tive acesso a escritores, repórteres e muitos poetas regionais inclusive Patativa do Assaré, que se tornou um amigo.
Em Cabrobó - PE. por volta de 1974, casado e estabelecido, imaginei continuar o segundo grau e mais uma vez a fatalidade falou mais alto: No boletim oriundo de Juazeiro do Norte, a nota em ciências, estava rasurada na decimal (9,7) isso fez com que a "competente" diretora do Senador Paulo Guerra, não aceitasse a minha matrícula. Rasguei aquilo lá e me matriculei no Tele-curso 1.º Grau na Escola 11 de Setembro e conclui. Essa experiência foi muito boa, pois juntos, alunos e professora, anexamos algumas inovações na área de matemática básica e consolidamos amizades que perduram até hoje.
Inventei de continuar no Senador Paulo Guerra, mas houve uma incompatibilidade entre eu e aquela turma jovem. Eles quebravam carteiras, desligavam a rede elétrica, entre outras molecagens. Surgindo, alguns anos depois, o Projeto Avançar na Escola José Caldas Cavalcanti, Antiga 11 de Setembro, foi lá que conclui com honras o meu 2.º Grau. Durante esse período, descobri que havia aprendido muita coisa fora da escola tradicional, os cursos, as leituras e o mundo técnico, foi para mim uma grande lição. Sob a tutela de Albany e de Euza, o meu autodidatismo foi apenas organizado e lapidado e, mesmo sendo apenas um curso básico, me senti um verdadeiro "doutor" quando recebi aquele canudo em branco. Dessa experiência, ficou a seguinte conclusão: a vivência de mundo também nos ensina, e bem. Acho que a necessidade é mãe da invenção.
Gosto de inventar - inclusive, concorri em 1980, com 29 malucos como eu e obtive o 1.º lugar. Depois desse evento, o sigla "Dr." ficou comum em minhas correspondências e para fazer valer esse título, encarei um curso no CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO VALE DO SÃO FRANCISCO - CESVAF e conclui a primeira fase de Letras. Se o tempo não "nubrar", brevemente poderei me considerar um "doutor", com uma gorda aposentadoria de PROFESSOR.