Era um brinquedo de madeira. Um brinquedo feito a mão.
As sobras do que fora usado para a mobília, o marceneiro, como de costume, já havia depositado na caixa de lixo. Pedaços de pau, restos de cola, pregos entortados compunham a miscelânea que meu pai, cuidadosamente, ia resgatando do fatídico destino.
Sob a condução de um espírito lúdico, ele brincava de cortar, colar, pregar... Seu olhar refletia tal satisfação que era capaz de concorrer com a minha ansiedade em ver seu trabalho acabado.
O brinquedo - um carrinho de puxar - possuía um misto de novidade e gratidão. Com ele, brincar era mais que uma brincadeira. Assim o conservei - meu brinquedo favorito - pelo tempo que foi necessário brincar.
Era um brinquedo de madeira, feito do mais puro coração.
Mas a vida, que gera o novo, também cria o velho e quarenta anos se passaram sem que nenhum outro feito estampasse tal ternura nos olhos de quem um dia me encantou. Envelhecemos os dois...
Hoje brinco com a lembrança.
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