Intelectuais odeiam esporte? Nem sempre.
Tal o personagem alter-ego de Nick Hornby, no romance Alta Fidelidade, pode-se fazer listas, no caso, desses indefectíveis senhores intelectuais, que, nos momentos de descanso de seus neurônios, queimavam energia acumulada, esmurrando sparrings, muito bem pagos para isso, como Ernest Hemingway, amante do boxe.
Nelson Rodrigues, dramaturgo e jornalista, não batia sua bolinha, mas dava seus palpites, e teve a honra e a audácia de inaugurar no jornalismo brasileiro, sempre tão recatado e avesso às novidades, a hoje tão maltratada crônica esportiva. Torcedor fanático do Fluminense carioca, clube considerado "pó de arroz", ou seja, da elite, Nelson quebrava esse paradigma escrevendo para todos, inclusive, e, talvez, sobretudo, para o povão. O cara que legou à dramaturgia brasileira textos densos, intrínsecos, porém verdadeiros, como Toda Nudez Será Castigada, Véu de Noiva e Engraçadinha, divertia os leitores esportistas, com suas crônicas às vezes mal-humoradas, mas sempre contundentes, e, não raro, poéticas. Inventou bordões e personagens como o nefasto Sr. Imponderável de Almeida, para explicar como, no futebol, pode um time mais fraco ganhar do mais forte. Pode simplesmente. Mas Nelson não se furtava à sua tendência quase irresistível para o drama. Talvez, para ele, a vida se explicava pelo drama, pelo absurdo. Talvez tivesse mesmo razão.
Com um toque de letras, ou melhor, de bola, mais refinado, aparece Chico Buarque de Holanda, oriundo de família nobre, no quesito intelectualidade. Compositor, nos momentos de folga, ainda bate uma bolinha. Há quem diga que, apesar dos 60 anos, seja capaz de dribles desconcertantes, quando envergando a camisa 10 do seu Politeama Futebol Clube. Mas, na verdade, atribui-se essa crítica generosa aos fãs de suas composições. Musicais, grife-se. Diga ao Chico que tal música sua é ridícula, que poderia ser escrita de outra forma, e melhor, e talvez, ele concorde. Mas nunca lhe diga que ele é perna de pau, que nada sabe de bola, e, certamente, você terá um inimigo pro resto da vida.
Seria injusto falar dos conterrâneos de Pelé e não citar, por exemplo, os de Maradona. Então vamos lá. O argentino Julio Cortázar, aquele do olhar introspectivo, do tal de Lucas, nunca botou os pés numa bola, mas, entrou para a História, ao inventar um jogo que exige de seus participantes, atenção, destreza e disposição para gastar os neurônios. Desafio que este cronista, por exemplo, ainda não se convenceu a enfrentar, embora tenha tentado algumas vezes. Brincadeira de criança? Sim, à primeira vista. Mas, em realidade, não, apesar do nome sugestivo: O Jogo da Amarelinha.
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