| A passagem secreta pt.1 |
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Não eram onze
da noite quando Hugo saiu do trabalho. Fora demitido do único em que realmente
gostou de ficar. Foram apenas dois meses. Sua caixa porém estava cheia.
Retratos, bilhetes e recordações de tudo que vivera ali. Amanhã tudo iria para
o lixo.
Seu dia talvez não fosse tão ruim, afinal já havia sido demitido antes, mas porquê teria sido expulso no mesmo dia em que sua namorada terminara com ele? Nada parecia fazer sentido. Segurando aquela caixa cheia de bugigangas não pôde notar que havia um bueiro à sua frente. Não pode perceber que cair ali seria a pior coisa que lhe aconteceria em sua vida desde que fora parar naquela metrópole. E depois de dois passos, Hugo caiu no bueiro. Sua sorte foi ter a caixa amortecendo sua queda ao desabar antes dele, mas não estava pensando nisso agora. Ficou alguns segundos ali deitado, quando ouviu um "bip". Levantou-se lentamente com medo de poder ter quebrado algum osso e olhou com os olhos semi-cerrados para tentar enxergar porque havia na parede uma luz piscando. Andou até ela e percebeu que o bip vinha da luz e que o som estava sincronizado com ela. Ali perto duas vozes abafadas e quase inaudíveis gritaram: Não aperte. Mas era tarde demais. Hugo não teve outra reação se não tocar na pequena lâmpada vermelha e apertá-la. Por que diabos uma lâmpada piscaria dentro de um bueiro? Antes que pudesse pensar em qualquer resposta, um pedaço da parede se moveu para dentro. -Entre. - disse uma voz. O rapaz de vinte e cinco anos olhou para a caixa amassada onde havia caído e lembrou do dia que tivera. O que podia ser pior que isso? Entrou pela entrada que havia se formado ali e com a escuridão só pode ouvir um "clic" de uma parede se fechando. Luzes se acenderam e lá estava ele cercado por mais duas pessoas. Um aparentava ser um velho barbudo e mal encarado, a outra, uma garota de 18 anos. O lugar ainda parecia mal iluminado e Hugo estava se acostumando com a claridade. Pode ver dois pilares de pedra. Em um estava esculpida uma caveira, e no outro um anjo. Sobre cada pilar havia um botão azul escuro. -Fomos escolhidos para receber você. -disse a garota. -Sabiam que eu viria? -perguntou Hugo confuso. -Sabíamos que alguém iria cair num bueiro aberto pela noite a qualquer momento. Hugo suspirou. Parecia ter sentido. -Foram escolhidos por quem? -Isso não interessa. Esse lugar chama-se passagem secreta. Existe há mais de cem anos e a cada dez anos ela pode ser aberta. "Agora nada mesmo parece fazer sentido" pensou o rapaz. -Você tem dois botões para escolher. Não poderá sair daqui enquanto não apertar um dos dois. Um leva à uma noite perfeita e a morte. O outro a uma noite horrível e a vida. Hugo se aproximou do pilar com um anjo. A sua frente apareceu a sua própria imagem: Estava à frente de um bueiro aberto. Então se aproximou do outro pilar com a caveira. Uma imagem sua no trabalho aparecia, estava sendo promovido e na porta do escritório sua namorada aguardava com um sorriso no rosto. Já havia entendido. Estava a um passo de escolher o seu destino. Olhou para os lados e percebeu que agora estava sozinho. Pensou por alguns segundos e apertou o botão do pilar com a caveira esculpida. Sentiu uma forte dor na cabeça. Abriu os olhos. Estava em seu escritório. Porque dormira em cima da mesa? Duas batidas na porta e seu chefe entrou. Fora promovido. Sua namorada aguardava na porta. Já estava de saída. Tentou contar o que havia acontecido a ela enquanto os dois caminhavam até o ponto de ônibus. Hugo parou. Um velho barbudo estava sentado no banco do ponto. Era o mesmo que havia visto. Olhou para a sua namorada e lembrou-se que há poucas horas ela havia terminado com ele e agora tudo parecia bem. Mas o que tinha feito? O botão da caveira levava à morte e aquele velho só poderia estar ali para levá-lo com ele. Correu até o bueiro por onde havia caído. Tentaria reverter o que fez. Desceu por ele e no lugar da pequena lâmpada vermelha havia um envelope com o seu nome. Leu o que ele dizia: "Você já fez a sua escolha" Atrás dele apareceu um velho barbudo. -Sua hora chegou. - disse o velho. Na rua um bueiro se fechou sozinho e naquele ano de 1998 ninguém mais ouviu falar de Hugo. Continua...
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