ESA #5 - Amigos são amigos quando compartilham segredos Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Mariana Mello, em 11-03-2008 12:41
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A tarde estava agradável, especialmente no parque onde André comprava um algodão-doce cor-de-rosa para Joyce, enquanto os dois passeavam como namorados devem fazer. O lugar ficava sempre cheio de gente andando de bicicleta com os filhos, casais passeando e pessoas que iam a exposições nos museus nas redondezas.

Joyce vestia um lindo vestidinho branco florido e sandálias baixas enquanto André tentava não morrer de calor com sua calça jeans, tênis e camiseta azul.

- Hmmm que delícia. - Joyce comentou ao comer um pedaço do algodão doce. André aproveitou para beijar-lhe a bochecha esquerda com carinho e quando seus olhos se cruzaram, sorriram um ao outro com ar apaixonado.

Do outro lado do parque sentados em uma das mesas estavam Guta e Erick, debruçados sobre o Lap Top Vaio dele. Na tela uma imagem borrada de um músico no Café Ville Leonora.

- Estão um pouco distorcidas. - Guta comentou ajeitando a alça da sua blusinha amarela folgada na barriga para esconder a flacidez. Os joelhos nus em cima do banco de madeira balançando o chinelo delicado nos pés.

- Que merda, isso sim! - Erick reclamou com seus brincos na boca, de calça de flanela e camiseta vermelha. Ele já imaginava que as fotos sairiam ruins... não conseguira parar de tremer toda vez que olhava para Sofia... ela estava tão linda, como um anjo... por isso suas mãos suavam e ele tremia, tirando o foco da câmera de forma ridícula e amadora... que fiasco!

- Mas estão bem melhores que as de Adalberto, com certeza. - Guta tentou animar Erick, mas a verdade era que ela não entendia nadinha de fotografia.

- Só se esse Adalberto aí não saiba nem apertar o botão do disparador. - Erick desabafou irritado. - Preciso enviar duas fotos pra Cecília e só tenho fotos tremidas!

- Selecionaremos as duas melhores entre as tremidas, depois podemos fechar o computador e tomar um refresco. Estou morrendo de calor. - Guta não entendia de fotografia. - Além do mais, pouco importa como estão suas fotos, a Cecília quer mais exibir o novo fotógrafo... portanto, relaxe!

- É, tá. - Erick fez isso. Selecionou as duas fotos que julgou estarem melhores que todas as outras, mesmo que estivessem meio sem foco. - Acho que essas estão menos piores.

Guta esticou o olho para ver as fotos na tela. Era uma meio panorâmica do salão do café e depois uma da banda, que estava até bem enquadrada, mas estava sem foco.

- Estão lindas. - tentou ser legal. - Mas acho que sua câmera quebrou, você viu como as primeiras fotos estão ótimas e as outras começaram a ficar sem foco? Até parece que era outra pessoa... você não emprestou a câmera pra Ceci, não? - Guta debochou, com uma risada marota.

- Deve ter sido alguma sujeira na lente que eu não vi. - Erick mentiu. Não ia dizer que tudo começou quando Sofia apareceu. Chegava a ser meio ridículo, mas era verdade.

Enviou um e-mail para Cecília. Depois que o aviso de e-mail enviado apareceu, Erick fechou e desligou o laptop enfiando-o dentro de sua mochila. Colocou a mochila nas costas e se virou para Guta, que já estava impaciente de esperar:

- E aonde vamos?

- Conheço um lugarzinho legal aqui perto. - Guta sorriu pegando sua bolsa pequena de couro e passando-a por baixo do braço.

Eles caminharam juntos e em silêncio para fora do parque até que chegaram em uma lanchonete pequena nos arredores, sentando-se em uma mesa perto da entrada, para que pudessem espiar caso André e Joyce saíssem sem avisar - ou passassem procurando.

- Eu quero uma coca com gelo. - Guta pediu ao garçom que se aproximou com um bloquinho.
- Ah eu quero um chá gelado com limão. - Erick acrescentou afastando o cabelo dos olhos azuis. O garçom se afastou e deixou os dois sozinhos.

A lanchonete era escura e nada movimentada para uma terça-feira após período escolar. O local ao menos era limpinho e não tinha moscas.

- Onde foi que você aprendeu a fotografar? - Guta indagou curiosa, com um sorriso no rosto, puxando assunto para não ficar aquele silêncio chato de pessoas que nem se conhecem.

- Sozinho, não fiz nenhum curso. - Erick respondeu com um sorriso. - Vai ver por isso elas ficaram tão tremidas..!

- Você ganhou um concurso de fotografia, então nem vem com essa!

- Tá, você me pegou. Fotografia era uma das atividades extras do colégio que eu estudava, eles meio que incentivavam todo tipo de coisa...

- Devia ser um colégio bem legal.

- Era um saco, eu estudava o dia todo...

- E tinha uniforme, esse tipo de coisa?

- Um uniforme ridículo...

- Ah me mostra!

- Nem!

O garçom nessa hora interrompeu a conversa servindo a bebida para os dois. Erick deixou o assunto morrer não dizendo mais nada e Guta também não insistiu naquela história do uniforme, porém, assim que o garçom saiu de perto, ela continuou a conversa:

- Eu nunca me mudei. Deve ser muito ruim mudar né? Ainda mais nessas condições. - André havia dito que Erick mudara porque sua mãe faleceu e seu padrasto o mandou embora. - Você não se dava bem com seu padrasto?

- Na verdade eu me dava bem. - Erick sorriu meio sem graça. - Mas é que esse negócio de decisão judicial é complicado...

- Se você não quiser falar a respeito, por mim tudo bem.

- Não tem problema.

- Eu não me dou muito bem com a minha mãe. - Guta confessou segurando a coca-cola. - Ela queria que eu fosse como ela. Minha mãe foi modelo na minha idade, sabe? Magricela, bonitona... e ter uma filha que adora coca-cola e chocolate é demais pra ela! Pega no meu pé o tempo todo com tudo o que eu como...

- Você não é gorda.

- Mas também não sou magricela como as modelos...

- E o que tem isso?

- Minha mãe queria que eu fosse magra e bonita.

- Não acho que pra ser bonita tem que ser magra, não. Além do mais, nossos pais sempre querem que a gente seja de um jeito quando somos de outro. Acho que se fôssemos do jeito que eles queriam, eles iam inventar um jeito diferente pra querer a gente.

- Faz sentido, você pelo visto não tem esse tipo de problema. Pode ser você que ninguém vai te encher o saco!

- Não é como se pudessem. - Erick girou o copo de chá na mesa, abaixando os olhos. - Ah, Guta... nem consigo chamar aquele cara de meu pai...

- Como assim?

- Meus pais se separaram logo depois que eu nasci. A última vez que eu vi meu pai biológico foi quando eu tinha uns sete anos, você acha que eu lembro? Nem lembro!

- Sua mãe casou de novo?

- Casou logo depois da separação... e ele também né... casou com a Sueli, mãe do André.

- E seu padrasto é um cara legal?

- É, Gregory é um cara legal.

- Se vocês se davam bem, então porque você veio morar aqui, Erick? Seu padrasto não podia ficar com você?

- Ah é um negócio meio complicado de explicar. Resumidamente... Gregory entrou com um pedido de adoção, mas não foi autorizado.

- Quem não autorizou a adoção?

- O pai do André, claro.

- Seu pai, né?

- É, é... meu pai biológico. - Erick falava de uma maneira simples que separava as duas pessoas, o pai biológico, que era Márcio, e o pai de criação que era Gregory.

- Eu entendo o Tio Márcio. - Guta replicou. - Afinal você é filho dele. Deve ser difícil pra um pai liberar a adoção pra um desconhecido... Ele pode ter medo...

- Medo de quê?!

- Sei lá... do que seu padrasto possa fazer com você...

- Que piada... - Erick riu.

- Tio Márcio deve ter um bom motivo, Erick!

- Certo. - Erick não estava convencido.

- Dê tempo ao tempo... Tio Márcio é um cara de bem! Tia Sueli é super legal e André também... tenho certeza que você será bem acolhido na família e vai gostar.

- Vamos deixar isso pra lá. - Erick cansou do assunto. Não concordava com Guta, mas ela nunca ia entender. - E por favor, não comente com ninguém isso tá?

- Como prova, eu vou te contar um segredo. Assim ficamos quites.

- E que tipo de segredo?

- Daquele tipo especial pras meninas!

- Ah, você vai me dizer quem é o cara em que você tá interessada? E desde quando isso é segredo mortal? Você pode resolver contar pra ele, e já era o tal segredo...!

- Mas eu nunca vou poder contar pra ele e nem pra ninguém, por isso é um segredo especial.

- Por que você não pode contar pra ele?

- Porque ele namora a minha melhor amiga, se eu contar, vai dar uma confusão master.

- Ah, sei. O André.

- É, o André. Eu sou apaixonada por ele desde a sétima série, que foi quando todos nos conhecemos na escola... e pior de tudo, é que eu vivia guardando meu primeiro beijo pra ele.

- Você nunca beijou na boca antes?

- Nunca beijei.

- Você tá falando sério?

- Lógico, por que eu ia mentir? - Guta bebeu da sua coca-cola aguada porque o gelo já estava quase todo derretido. - Eu nunca beijei na boca antes. Sou virgem de boca e de todo o resto.

- Ah, você tá brincando!

- Por quê? Você não é, não?

- Não!

- Não?

- Não.

- Poxa, que inveja... você tem namorada lá em Brasília?

- Não...

- Poxa, que triste? Por quê?

- Ah, triste nada... eu nunca namorei sério.

- Por quê?

- Ah, não sei, Guta...

- Aposto que quando você encontrar a menina ideial vai querer namorar sério.

- É.. talvez. - Erick ponderou, girando o copo de chá mais uma vez.

- Pelo menos você é mais sortudo do que eu. Que sou uma imbecil.

- Ah, não diz isso... - tentou confortá-la.

Guta sorriu, levantou o copo de coca-cola:

- Um brinde então! Aos nossos corações partidos, e seus motivos!

Erick sorriu em retorno para a menina, levantou o copo quase vazio de chá para brindar:

- E aos nossos azares, claro... o que seria da vida sem eles?!

- Um total tédio! - ela bateu seu copo contra o dele e secaram o conteúdo em um gole só.






- MEU DEUS COMO ELE É BOM! - Cecília berrou debruçada na sua escrivaninha com a cara colada na tela do computador, como se estivesse no meio de um orgasmo provocado pelo excesso de chocolate.

Sofia fechou o gloss cor-de-rosa depois de passar nos lábios e movida pela curiosidade se aproximou da irmã, para espiar o que ela estava fazendo, arrumando no corpo o vestidinho amarelo que combinava perfeitamente com sua sandália dourada e delicada.

- O que foi, Cecy?

- O Erick me mandou fotos maravilhosas... - suspirou, para parecer que fosse uma declaração de amor, mas eram apenas fotos. É que Cecília sempre adorou provocar Sofia quando o assunto era garotos. - Veja! - Ela apontou com o dedo colado na tela do computador e Sofia esticou o olho, vendo um borrão do que parecia ser o salão do Café Ville Leonora.

- Está meio sem foco, não é? - torceu o nariz, afastando-se para pentear os cabelos avermelhados, enquanto prendia uma presilha na franja comprida, fingindo total desinteresse. A foto estava meio sem foco, mas isso não anulava o fato de que agora Cecília e Erick trocavam e-mails depois da escola!

- É arte. - Cecília tentou defender. Na verdade também achava a foto meio borrada... mas Erick era uma gracinha, então não ia cogitar recusar uma foto dele. Especialmente porque se ele começasse a ajudar no jornal, Sofia ia morrer de ciúmes toda vez que ela ligasse pro fotógrafo gatinho para um encontro - pseudoprofissional, e riu sozinha, feito boba.

- Tá, que seja. Estou atrasada!

- Onde é que a senhorita vai?

- No cinema!

- Com quem? - Cecília girou a cadeira do computador, desconsolada porque a irmã tinha um encontro em plena terça-feira depois da aula, enquanto ela tinha que terminar a coluna do jornal.

- Não interessa! - Sofia deu uma piscadela marota de provocação. Cecília entendeu na hora o que aquilo significava: Sofia estava na frente, ia ao cinema com Renato! Enquanto isso tudo o que Cecília tinha para provocar a irmã eram duas fotos borradas e mal tiradas. Que fracasso. - Tchau!

- Que raiva! - Cecília resmungou quando a irmã virou as costas e saiu. Imediatamente ela teve uma idéia e apertou o botão de "responder" do e-mail de Erick. Sentiu-se uma mestra maquiavélica enquanto redigia o e-mail.

Sofia, Sofia... você está provocando a onça com vara curta!



Publicado em : Livros, Romance
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