| ESA #8 - Desabafos na madrugada |
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A noite estava confortavelmente escura. Guta sentada na rua enxugava suas lágrimas nas mangas de seu moletom cor-de-rosa de capuz. O nariz vermelho e os olhos inchados de um coração partido.
Erick estava em sua frente, com uma expressão chateada de quem não sabe o que dizer. Sua calça de flanela quadriculada parecia um pijama cinza e amarelo. Estava encolhido com frio, usando um moletom verde escuro. Os dois sentados no asfalto do bairro, em frente à casa de Guta, que ficava alguns quarteirões de sua nova casa. Estavam falando pouco, Guta não parava de soluçar colocando sua frustração para fora em forma de lágrimas. - Desculpe te chamar pra ficar chorando. - Guta disse sem graça, entre soluços. Era uma hora da manhã, estava frio e ela fizera Erick ir até a porta de sua casa para chorar as pitangas do fora homérico que levou. - Tudo bem, Guta. - ele tentou parecer simpático enquanto bocejava de sono, cansado. Estava sem dormir bem há alguns dias... com olheiras especialmente causadas pela ressaca que o atingira de manhã. - Eu não esperava que o André fosse tão grosso. - a menina reclamou, contorcendo os lábios e apertando-os em seguida, segurando o choro. Erick a encarou com seus olhos de vidro. Guta o olhava intensamente de volta, com os olhos encharcados de água salgada. A visão era deprimente, ela estava até descabelada de tanto chorar. Chacoalhou a cabeça em negação, antes de dizer com sinceridade: - E o que você esperava? Que ele largasse da Joyce pra ficar com você? - Eu sei... eu sei... - realmente sabia, mas não queria acreditar que depois de tudo André a odiasse daquela forma... que tivesse nojo dela, a ponto de recusar um abraço. - Eu... eu esperei tanto por ele... - recomeçou a chorar. No mesmo instante o celular de Erick começou a apitar cortando o chororô de Guta. Ela ergueu sua cabeça e o viu retirar o aparelho prateado do bolso, olhar pro visor resignado e desligar a ligação, sem muita pressa. - Quem era? - indagou curiosa, colocando-se de joelhos na frente dele. - Nada... - Ah... - antes de qualquer coisa, o celular voltou a tocar. Guta levantou uma sobrancelha e antes que Erick pudesse desligar, ela se inclinou para ver quem era. No visor, marcava "Gregory". - Atende, Erick. - Deixa pra lá. - Erick desligou o celular de uma vez, apagando o aparelho. - Eu não acredito... você tá fugindo, seu covarde? - Só não quero atender agora, Guta... - Você tá fugindo...!! - E daí? - Por que você não atende e diz a verdade? Que quer ir embora? - Não vai adiantar de nada.. e ei... viemos aqui falar de você, não de mim. - A Cecília não gosta de você. - Guta emendou um assunto no outro, aproveitando a brecha. - Quê? Erick encarou Guta. Sua pele estava avermelhada do frio e do choro, mas seus olhos agora largavam as águas e se apegavam a uma pitada de preocupação e raiva. - A Cecília... eu sei que ela fica te ligando, mas ela não gosta de você. - Que alívio. - ele riu. - É sério, Erick... antes que você se machuque se apaixonando por ela, melhor saber. - e sentou-se do lado dele, encarando suas sandálias de salto. - E o que faz você achar que eu vou me apaixonar por ela?! - A Cecília é boa nessas coisas, em fazer os meninos gostarem dela. - Ah, é? - divertiu-se, com um riso abafado. Guta levantou a cabeça para encará-lo. Erick a encarava de um jeito blasé, com um sorriso debochado no rosto. - Não acredita, né? - Não, Guta... o caso não é esse... - Ah eu sabia..! - Guta surpreendeu-se. - Você já ta afim de alguém...!! É da Joyce? Tem que ser da Joyce... ela é perfeita. Erick levantou uma sobrancelha fazendo ares de deboche. - Tá... você não acha? O André acha.... ei... se não é a Joyce e não é a Cecília só sobra uma alternativa... é a Sofia, não é? - E você não conta?? Eu posso estar apaixonado por você. - É a Sofia! - Guta matou a charada, com um sorriso confiante. - É por isso que você não as confunde! É ou não é??? - Ai, Guta... que idéia maluca... - Seeeei. - a menina voltou a encarar suas sandálias, viu suas unhas do pé que precisavam de uma pedicure urgente. - A Sofia é uma garota legal... eu estava achando que ela e o Renato estavam tendo algo, mas hoje no banheiro ela confessou que não. - Por que meninas falam essas coisas no banheiro? - Não tente mudar de assunto, engraçadinho!! - Estou dando tão na cara assim? - Não... quer dizer, um pouco... - Guta sorriu para ele. - Você se entrega por causa da Cecília... ela é bonita, gata que só... e está decididamente te dando bola... - Tá nada... - Cuidado pra não confundir ela com a Sofia e ficar com a gêmea errada! - Não tem como confundir uma com a outra, Guta... - Como? Eu as conheço há anos e ainda as confundo. - Não sei explicar. Elas são diferentes... reconheceria de longe quem é quem. - Hm.. você tá mesmo apaixonado, Erick, cuidado viu... aquelas duas são encrenca na certa! Podem ser irmãs, mas a turma toda sabe que quando o assunto é garotos, as duas não se bicam!! - Não tenho a menor idéia do que você quer dizer! E nem quero saber... - como sempre, Erick foi sincero. - Mas era bom saber... se você tá mesmo afim da Sofia é bom estar preparado pra aturar a Cecília, ela é bem competitiva e uma vez já roubou o namorado da Sofia, sabia? - Estou morrendo de sono, Guta... e não quero saber. - Ah... tá bom... - ela sorriu sem graça - desculpe ficar te segurando pra chorar o leite derramado pra você. - Não sendo café... se bem que café ia bem agora... - bocejou. - Quer que eu te leve até sua casa? - Não vou me perder! - Erick ficou de pé, batendo a poeira da calça. - Descanse. Guta ficou em pé também e abraçou Erick com carinho. Ele era o melhor amigo que ela poderia esperar um dia encontrar, especialmente sendo irmão - mesmo que não fosse de sangue - de André. Após se despedirem, Erick seguiu sozinho pelas ruas até chegar em sua nova casa. Olhou no relógio para constatar eu já eram quase três horas da manhã. A porta estava destrancada e Erick não encontrou dificuldades de entrar na casa escura. A sala estava sem qualquer iluminação. Fechou a porta com cuidado para não fazer barulho e deu duas voltas na chave. No mesmo instante, quase que como adivinhando que ele chegara, a luz se acendeu! Márcio estava de braços cruzados no meio do corredor, de pijamas azul claro, com o cabelo bagunçado e os olhos azuis em desaprovação. Erick bem conhecia aquele olhar típico de pai, ia levar uma bronca. - Isso são horas? Onde é que você estava? - Desculpe. Eu estava com a Guta... conversando. - Não sabe avisar onde está? Não te ensinaram isso em casa? - Não, não ensinaram. - Erick se irritou. - Eu já pedi desculpas!! - Não adianta nada pedir desculpas as três da manhã, depois que eu passei a noite em claro procurando saber onde é que o senhor tinha se metido! Quase liguei pra polícia! - Que desespero! - Você acha bonito debochar assim dos outros? - Eu não estou debochando! Estou sendo sincero... - Não responda dessa forma, tenha mais respeito. - Respeito é bem diferente do que você tá pedindo. - Erick, eu não perguntei a sua opinião! - Márcio berrou. - Onde você acha que tá? Na minha casa! E aqui tem regras e você vai obedecê-las, não importa se você gosta disso ou não. Estamos entendidos? - Eu não sou idiota, eu entendi. - Ótimo. Sobe já pro seu quarto de castigo, e só saia de lá para ir pra escola amanhã! - Mas...! - Nem mais uma palavra, isso é uma ordem. - Márcio foi duro como um pai deve ser. Encarava Erick com um olhar pesado e cheio de moral. - Da próxima vez aprenda a avisar onde está e não responda malcriado para os mais velhos! - Sim senhor. - foi a última coisa que Erick disse antes de subir as escadas arrastando os coturnos e entrar em seu quarto batendo a porta com toda força que tinha. - Que bonito, Erick! Poucos dias em sua nova casa e já começa a trazer problemas! Márcio no corredor suspirou pesado, em um misto aliviado e irritado. Vagarosamente andou até o telefone e sentando-se no sofá, discou um número longo de cabeça. Do outro lado da linha, uma voz de homem branda e em rouquidão atendeu: - Pronto. - Gregory? É o Márcio. Ele já voltou. - Ele disse onde estava? - Na casa da Guta, uma amiga da escola. Ela é amiga do André também. - Tentei ligar para ele, mas sem sucesso... estava achando que ele ia fugir! - Greory debochou. - Vai ser difícil assim. - Márcio desabafou espontaneamente. - Você disse que queria a chance de conhecer seu filho, Márcio... eu respeitei. - Não foi assim que imaginei que as coisas seriam! Ele está diferente... tão... - Talvez a solução fosse parar de imaginar como seria e admitir as coisas como são. - Não vai ser nada fácil, Gregory. - Quer desistir? Se quiser pode enviá-lo no próximo vôo pra Brasília, eu dou um jeito... - Não! Não quero. - Márcio respondeu de imediato sem qualquer hesitação. - Não vou desistir da chance de ser pai do meu próprio filho! Se não fosse isso nunca faria questão de trazê-lo para cá. - É. Eu sei... - E o que eu faço com relação às garrafas de vinho? - Apenas ignore, não é como se ele fizesse isso todo dia... - O André nunca bebeu antes. - Não é como se o Erick tivesse obrigado ele a beber. - Sim, você tem razão, mas ele vai ficar bebendo todo dia? - Eu não sei Márcio, ele é seu filho agora, você que tem que controlar isso. Eu sempre dei a ele liberdade para fazer o que quisesse. - É por isso que ele está assim, parecendo um marginal! Um mau elemento recém-saído da cadeia ou algo do tipo! - É, mas ele é apenas um adolescente, não se esqueça disso. E você antes de reclamar podia procurar entende-lo que tal? Ele tem dezesseis anos e teve que lidar com a mãe em coma esse tempo todo sozinho. - Do jeito que você fala parece que eu nunca me importei com ele. - Sejamos sinceros Márcio, estava bom daquele jeito pra você. - Eu não sabia que ele estava desse jeito. - Desse jeito como? Ele é um ótimo rapaz, com um coração enorme e muito inteligente. - Gregory, não vou discutir isso com você. E desaprovo a educação que você deu a ele. - Foi melhor que a sua, já que ela não existiu. - Eu tenho certeza que ele está melhor aqui comigo. - Ótimo! Então não me encha a paciência com seus problemas. - Está bem, obrigado por tudo! Gregory fechou o celular e colocou em cima da mesa, onde duas taças de vinho e uma garrafa quase vazia estavam. Era um homem jovem e bonito, de cabelos castanhos avermelhados e olhos negros como a noite. Respirou fundo com a mão na testa procurando se acalmar. - Você não devia abrir mão de um filho tão facilmente, Gregory. - o homem a sua frente acrescentou. Cabelos grisalhos e mais idade marcavam seu semblante de pele oleosa e sorriso bondoso. A janela atrás deles deixava que a brisa gelada da noite entrasse na sala aconchegante do quarto de hotel em que estavam. Papéis de contrato eram analisados entre conversas longas e pessoais, os homens trocavam suas experiências de vida e faziam negociações importantes. - Eu sei! Eu sei... mas não posso privá-lo de ter uma família de verdade. O que ele teria aqui comigo? Ficaria sozinho em casa, ou pior, com aqueles amigos... eu sou muito ocupado, Waldir. - Só que agora quem está sozinho é você. - Não tenho o direito de ser egoísta dessa forma! Por pior que eu me sinta... - Família é um bem importante, Gregory... - Exatamente por isso que estou fazendo isso. Erick é obediente e ficará lá, por pior que esteja sendo agora no início!! - Mas como tudo nessa vida, todos irão se adaptar às suas novas vidas. - O meu único receio é que comece a me odiar por isso... seria um preço alto a se pagar. - Não se culpe, você é um bom homem e soube cuidar da educação do garoto enquanto Heloísa estava no hospital. Mas ela se foi e agora você precisa seguir sua vida. - o conselho era importante, vinha de um homem sábio que já havia vivido muita coisa, mas vinha também de um homem que se privou de ter uma família para cuidar da sua carreira. - Não, não eu. Eu já tenho uma vida para viver. - Eu admiro você por isso. Sabe o que quer. - Waldir o encarou com satisfação em seus olhos castanhos. - E acho que essa sua virtude o fará ir longe em sua carreira. - Confesso... Estou tão preocupado que estou quase indo buscá-lo! Waldir abriu um sorriso que se seguiu de uma gargalhada. Os dois brindaram as taças e continuaram falando de negócios.
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