ESA #9 - Um corredor de surpresas. Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Mariana Mello, em 22-03-2008 11:53
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Quando o sinal do intervalo tocou pelo Colégio Montenegro, Renato aproveitou para espreguiçar-se na tentativa de despertar após a chata e monótona aula de geografia. Ao seu lado direito estava Joyce escrevendo uma cartinha de amor para André e do seu lado esquerdo, Erick dormindo - a aula inteira!

- Ei, Erick, você está vivo? - Guta o cutucou, os cabelos trançados, usando de calça jeans cinza clara e bota plataforma que a deixavam com mais tamanho e quadril do que já tinha, ao contrário de Joyce, que de calça jeans preta e sandália de salto fino continuava uma princesa vestida pra balada. - Já tá na hora do intervalo...

- Eu tenho que ir até a sala do jornal. - foi tudo o que ele disse quando ergueu a cabeça, logo depois, saiu deixando os amigos na sala, carregando o seu visual de sempre e sua calça xadrez verde e vermelha - como uma árvore de natal - para longe.

- Credo o que ele tem? - Renato, de calça jeans e tênis da Nike, usando um colar de couro como um surfista de meia-tigela, indagou olhando para Guta que deu de ombros. - E o André cadê? Cabulando aula?

- Ele queria ficar treinando na quadra porque foi mal no jogo ontem. - Joyce respondeu com um sorriso orgulhoso cheio de batom brilhante cor-de-rosa. Usou um selinho em forma de coração para prender a carta de papel pêssego. - Por que não vamos pra lá? Assim já conto as novidades!

- É, vamos. - Renato e Guta responderam juntos, a contragosto, cada um com seu motivo particular - e bem parecidos!

Os três saíram da sala e foram andando pelos corredores. Joyce, como não podia deixar de ser, começou a fazer perguntas na tentativa de fofocar:

- Renato, quando vai confessar que está saindo com a Sofia?

- Não estou... - ele afastou a franja dos olhos verdes.

- Ela é hiper bonitinha... - Joyce insistiu.

Guta ficou calada tentando não se meter no papo, parecendo distraída.

- É, a Sofia é bonita, mas ela é só minha amiga.

- Não está afim dela? - Joyce deu um cutucão em Guta, chamando a atenção da amiga. Era o cutucão "Viu eu disse que o Renato era gay."

- Não Joyce... você tá sempre querendo que todo mundo ao seu redor namore, né? - Renato deu um sorriso amarelo e falou com um tom irônico perceptível.

- Procuro o bem dos meus amigos e seria legal a turma toda namorando...

- É, mas eu não quero namorar ninguém. Estou me dedicando ao basquete, quero tentar uma vaga no time do estadual e tudo mais.... - respondeu. Certo, Renato, a quem você quer enganar? Todo mundo sabe que você só se dedica ao basquete porque não namora a Joyce!

Guta deu um cutucão em Joyce, que queria dizer "viu eu disse!", em resposta ao primeiro cutucão que levara.

- É, faz bem em se dedicar ao basquete, Rê. - Guta sorriu. Ela queria ter algo a se dedicar também, para esquecer das coisas horríveis que tinha feito, que ficavam rodando sua cabeça e não a deixavam dormir direito a noite.

Assim que alcançaram a quadra da escola, encontraram André treinando em uma cesta de basquete, tendo que dar espaço para um time de futebol que se formava. Com a bola em baixo do braço, juntou-se com seus colegas na beirada da quadra:

- Oi!! - Joyce o abraçou com carinho e deu-lhe um beijo no rosto. - Fiz uma coisa pra você. - ela estendeu a carta cheirosa do papel de pêssego.

- Ah, valeu, depois eu leio. - pegou a carta e a enfiou no bolso da bermuda jeans, sem dar atenção e amassando a cartinha.

Joyce abriu a boca para reclamar...

- E então, qual era a super novidade, Joyce? - Renato perguntou cortando o clima de namoro e arrumando os cabelos loiros para trás da orelha.

- Ah, vocês vão adorar... Joaquim meu irmão, vai dar uma festa esse sábado em casa e me deixou chamar meus amigos. Meus pais estarão viajando, o que significa que poderemos fazer toda a bagunça que quisermos!

- Que legal! - Guta tentou parecer empolgada. Não estava em clima de festas. Na verdade não estava em clima de mais nada e nem tinha coragem de falar com André. Nem estavam se olhando cara a cara.

- É, soa divertido. - André também tentou agradar.

- Ah não sei... - Renato foi o único que não quis participar da falsidade. - Eu tinha combinado correr com meu pai pela manhã no domingo...

- Ah Rê, vai ser o máximo! - Joyce o olhou com jeitinho de "Branca de Neve" e o ganhou.

- Acho que posso marcar pra correr depois do almoço...!

- Guta! Vamos avisar a Sofia e a Ceci pra irmos juntas no shopping amanhã! Comprar roupas novas! Depois podemos dormir todas lá em casa, numa festa do pijama!

- Tá bem! - Guta sorriu por educação.


Cecília estava sentada na frente do seu laptop escrevendo com fulgor o interessante artigo do amistoso jogo que ocorrera no colégio. Enfatizava que o Colégio Montenegro devia sua vitória ao "Atleta de Ouro", que iluminou como um Sol o ginásio e transformou o jogo em um imenso espetáculo!

Os cabelos alaranjados estavam presos em um coque executivo, que a deixavam com uma cara jornalística típica. Uma calça caqui branca completava o visual e sua sandália no chão, ela descalça, bem à vontade fazendo o que ela sabia de melhor: escrever com emoção. E estava muito concentrada! Não ouviu na hora que Erick entrou pela porta, aliás, só se deu conta que ele estava na sala, quando ele a segurou pelo ombro:

- Ei, Cecília! - era a terceira ou quarta vez que a chamava. Já estava impaciente.

- Aiii - Cecília berrou em um susto, girando a cadeira.

Com uma boa olhada em Erick, analisou com desdém seu visual: sua calça xadrez mais que horrível e uma camiseta de mangas compridas preta por baixo do uniforme. Erick só se salvava da humilhação por causa de seus olhos azuis, o anel que usava no polegar e seus piercings, elementos que todas as garotas da escola julgavam afrodisíacos.

- Credo, Erick, quase que eu morri! - com uma das mãos ela acariciou o colo, tentando segurar o coração que queria sair pela boca.

- Estou há um tempão te chamando... você taí com a cara colada nessa tela fazendo não sei o quê...

- Isso, meu querido, é a matéria do jogo de basquete de ontem!! - disse orgulhosa, empinando o nariz como sempre fazia, era mais que uma mania, já era uma marca registrada. - Só consigo escrever no intervalo ou em casa depois da aula... Ah! E as fotos que eu te pedi? Trouxe?

- Aham. - estendeu para ela um pendrive. - Sei lá nem todas ficaram boas, mas acho que vai dar pra usar uma coisa ou outra.

Cecília torceu o nariz. Lá vinha Erick com suas fotos borradas, sem foco e péssimas! Eram tão ruins quanto às de Adalberto, mas pelo menos Erick era uma gracinha - o suficiente para Cecília se sentir bem com isso: ser invejada pelos outros era com ela mesmo! Aliás, apenas ser invejada por Sofia estava mais que ótimo, era tudo o que ela queria!

- Tá bem, espeta essa tranqueira aí... - a garota deu espaço para que Erick usasse a entrada USB para o pendrive, levantando-se da cadeira. Cruzou os braços de forma impaciente. - Olha Erick agradeço mesmo toda a sua ajuda, mas será que dá pra deixar o lado artístico de lado e tirar umas fotos mais.... hm, jornalísticas?

- Antes de reclamar, olha as fotos. - por cima do ombro lançou um sorriso debochado.

- Erick... - Cecília ia reclamar mais alguma coisa mas parou estática quando viu a tela de seu computador exibindo uma foto de Renato driblando um jogador do outro time, heroicamente roubando a bola. A imagem tinha emoção, dava pra sentir a adrenalina no corpo de Renato - e convenhamos, o modelo colabora! - era uma foto realmente boa, bem enquadrada e focada. O flash dava vida aos olhos verdes de Renato e escureciam todo o resto, dando destaque ao atleta. - Você fez essa foto ontem? - Cecília estava admirada.

- Que outro dia ia fazer?

- Está magnífica... quer dizer, é claro que o Renato por si só já é um gato, mas a foto parece de revista... nunca vi uma foto tão boa no jornal da escola antes... estou surpresa. - ela se debruçou perto dele, para ver a fotografia mais de perto.

- Vindo de você, vou aceitar como um elogio.

Cecília sorriu mais relaxada. Não é que além de bonitinho ele tinha mesmo talento?! Que sorte...! Ali onde estava era até uma vantagem, pertinho de Erick, capaz de sentir o seu perfume.

- Foi um elogio... - respondeu com uma voz aveludada e cheia de conotações, falando manso ao pé do ouvido de Erick. - Obrigada por tudo o que fez por mim até agora... sei que tenho sido chata e estressada...

- É... - Erick colocou-se de pé e Cecília o acompanhou no movimento. Ficaram daquela forma um tempo. Um de frente para o outro, em silêncio. - Mas vamos esclarecer uma coisa...

- Sim... - Cecília não podia mais se segurar, estava prestes a agarrá-lo.

- Eu não fiz nada disso por você. - e a frase veio como uma bigorna gigantesca do céu, quebrando todo e qualquer clima. Cecília quase perdeu a compostura, mas era uma garota muito esperta e entendeu o desafio.

- Sofia?

Erick não respondeu, mas deixou um meio sorriso escapar pelos cantos da boca.

- Você não vai agüentar essa situação. - Cecília não escondia suas intenções, seu tom de voz era claramente seguro. - Eu não sou de perder!

- Você já perdeu. A gente se fala por aí... - Erick deu meia volta e saiu da sala do jornal, deixando uma Cecília incendiando de raiva para trás.

Erick fechou a porta da sala onde estava Cecília e encostou suas costas nela. Era inacreditável que fosse verdade o que Guta dissera na noite anterior: Cecília competia mesmo com a irmã, era doentio! E se sentia um imbecil, porque obviamente Cecília nem fazia questão de suas fotos, mas sim, de que ele ficasse atrás dela recebendo ordens que nem um cachorro sem dono!

- Oi? Será que eu posso entrar? - Sofia cortou seus pensamentos, parada na frente da sala, de calça jeans, usando um sapatinho de boneca e uma fivela branca de strass segurando o cabelo de lado. A boca avermelhada de batom.

- Não. Não pode... - Erick não sabia nem por onde começar, mas estava decidido a não deixar aquilo ir adiante. Ele não ia começar a tremer como um idiota e gaguejar piorando ainda mais a situação. Chega!

- Mas por quê?

- Por nada, quer dizer, por tudo! - ótimo, já não conseguia mais fazer sentido.

Sofia ficou parada segurando um livro qualquer. Ergueu suas sobrancelhas visivelmente confusa e insegura. Esperou que Erick continuasse com seu discurso e explicasse o que estava acontecendo. Mas a partir daquele momento Erick não pensou mais no que estava fazendo e apenas fez: segurou Sofia pela cintura puxando-a para si e beijou-lhe o lábio avermelhado.

O livro que ela segurava foi ao chão em um estardalhaço, caindo aberto amassando as folhas finas.

Sofia correspondeu ao beijo como se esperasse por aquilo acontecer. Os minutos passaram depressa, mas o mundo ao redor parou... e se beijaram no corredor da escola até a hora que o sinal do intervalo voltou a tocar, quebrando o beijo em um quase susto, abruptamente.

- Que droga! Tenho que voltar pra aula.

- Eu também... agora posso entrar no jornal? - Sofia o olhava com um sorriso lindo.

- Agora? Pode... é, eu acho. Quer dizer, agora pode... - Erick pegou o livro do chão. Era um dicionário. - Desculpe...

- Obrigada.

- Será que você... quer dizer, se você não estiver ocupada... pode me encontrar lá no pátio? - Sofia olhou para ele confusa. - Digo... depois que a aula terminar?

- Ih, não vai dar... hoje eu tenho o ensaio pro recital.

- Ah... tudo bem... - suspirou resignado.

- Mas acho que posso aparecer no pátio antes de ir pra aula de música... com um pouco de esforço!

- Tá, eu vou te esperar.

Erick a beijou mais uma vez antes de sair correndo pelo corredor. Sofia ficou que nem uma tonta ainda processando mentalmente tudo o que havia acontecido. Tudo bem que não fora nada romântico e fora bem diferente do que ela imaginava antes de dormir... mas a espontaneidade do momento tinha o seu ar de especial.

Depois que conseguiu lembrar e enumerar seus afazeres, voltou para a sala do Jornal. Cecília desligava o computador guardando-o na mochila.

- Ai, Sofia, que demora... fiquei esse tempo todo te esperando com o dicionário... agora não preciso mais. - reclamou como uma velha chata.

- Desculpe... eu me perdi no meio do caminho. - Sofia mentiu, a expressão distante a abobalhada. Ela não sabia mentir e Cecília percebeu.

- Aconteceu alguma coisa?

- Não, nada... só estou um pouco aérea por causa do recital de música.

- Ah, o recital. Você é tão boba, todo ano faz a mesma idiotice de sempre, subir no palco e tocar aquele violino desafinado... e mesmo assim todo ano você fica que nem uma pata perdida...! - Cecília debochou.

- Olha só quem fala, você nem sabe tocar um violino.

- Nem nunca fiz questão, meu negócio é festa, festa e festa...

- Por falar em festa a Joyce mandou um recado no celular, você viu?

- Não.

- O irmão dela vai dar uma festa e ela quer que a gente vá ao shopping juntas comprar roupas e depois fiquemos lá pela casa dela... o que acha?

- Ela sabe mesmo comprar roupas! - Cecília riu satisfeita. - Mas dessa vez eu escolho o nosso visual, tá?! Agora vamos que o professor de português não vai deixar a gente entrar atrasada na aula!!

- Vamos... - Sofia não ia se importar se dessa vez chegasse atrasada na aula.



Publicado em : Livros, Romance
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