À tarde de sexta-feira estava ensolarada e quente, o sol parecia queimar e o céu estava azul e sem nuvens. Não que isso fizesse alguma diferença para as quatro meninas que estavam no shopping perambulando e olhando as vitrines das lojas mais caras.
- Esse vestido é maravilhoso! - disse Joyce encarando um manequim que usava um vestido azul turquesa brilhante tão liso que marcava todas as formas do manequim. Ia até a canela e era um tomara que caia amassado na frente, que com uma fivela redonda prendia duas alças no pescoço, trançando o colo. - O que acham?
- Não está meio formal demais para uma festa do seu irmão? - Guta perguntou, tomando um sorvete de casquinha de chocolate. - A turma dele é toda desencanada...
- Também, ninguém mandou o otário repetir o ano, mamãe o colocou em um colégio bem pior, ele só tem amigos mal vestidos. - Joyce reclamou, ajeitando sua bolsinha preta no ombro.
- Mal vestido é o irmão do seu namorado. - Cecília estava fazendo um coque nos cabelos e prendendo-o com uma presilha rosa como sua blusinha. - Não sei como uma pessoa consegue andar tão fora de moda...
- O Erick tem bem o estilo dele mesmo. - Guta comentou.
- Aquilo é falta de estilo. - Joyce retrucou.
- Se ele não fosse irmão do André eu faria questão de ignorá-lo a menos que ele aparecesse com umas roupinhas melhores... - Cecília deu trela para os pensamentos de Joyce. As duas eram bem ligadas em moda e gostavam de estar sempre arrasando. - É um queima-filme estar com ele.
- Ih, Cecília... que papo é esse? - Joyce virou-se para a amiga, girando os sapatos scarpin preto de salto altíssimo, que usava com uma calça jeans preta e skinny. - Não era você que no início da semana estava fazendo de tudo para que ele desfilasse do seu lado?
- Que isso, Joyce, até parece que não me conhece. É claro que eu estava, se um garoto é a notícia da semana na escola ele vai estar do meu lado e ponto final. Mas aí a confundir e começar a achar que eu gosto dele ou coisa parecida até me ofende. - Cecília estava irritada. Era visível em seu tom de voz que estava de mau-humor.
- Eu não vejo problema nenhum no Erick, ele é uma pessoa legal e divertida. - Guta defendeu o amigo.
- E aqueles brincos na boca matam qualquer uma. - Joyce continuou. - Mas que eu preferia vê-lo com roupas da TNG a aqueles trapos, também não é mentira. Ele ficaria bem mais gatinho. Vocês já viram aqueles óculos redondos dele? Aquele escuro? Que horror!! Aquilo é super fora de moda... acho que vou falar com o André pra dar uns toques de visual no Erick, pode adiantar...
- Pode ser, não sei. - Guta tentou concordar, mas a verdade era que não achava nada daquilo. - Ele estaria perfeitamente normal no meio de roqueiros.
- Que são ridículos, por sinal. - Cecília retrucou. - Ai, cadê a Sofia?!
As três garotas procuraram pela quarta amiga, que estava em frente à papelaria olhando a vitrine. Tinha que ser, devia estar fascinada olhando as canetinhas coloridas que estavam expostas.
- A Sofia por exemplo - Joyce começou - sempre tá normalzinha e sem glamour. Pode ver que de todas nós ela é a mais apagada. - depois se virou para Guta. - Eu queria ser alta que nem você, Guta.
- Joyce eu não entro em um vestido 38. - Guta reclamou.
- Por que tá um pouco gordinha, tenho certeza que se você parasse de comer tanto açúcar logo cabia em um.... - Joyce não era uma pessoa que segurava o que tinha para dizer. Ela não falava por mal ou para magoar, apenas se expressava.
- Mas aí eu ia morrer de tristeza, imagine se eu tivesse que parar de comer chocolate pra ficar magrela que nem você, sem chance. Queria poder ficar assim sem esforço!!
- A Joyce é magra de ruim que nem eu. - Cecília riu. - E você e uma preguiçosa.
- Sou mesmo!!
- Ah Guta, sendo bem sincera, não precisa caber em um 38. Você é corpulenta e alta, isso chama muita atenção. Só acho que você devia parar de fazer luzes no cabelo e ficar loiríssima logo de uma vez.
- Ai, você acha?
- Não escute essa doida, Guta. - Cecília reclamou. - O tom do seu cabelo assim está maravilhoso! Agora imagine como é chato o meu caso, que tenho que ficar combinando com a Sofia que roupa usar, ela não gosta de nada do que eu gosto.
- É um preço a se pagar. Gêmeas fazem sucesso com os garotos. - Joyce riu. - Aposto que todos os caras do colégio ficam sonhando com vocês duas... todos os garotos pensam em fazer com duas meninas, se elas forem gêmeas então, é o ápice do desejo. - quem ouvia Joyce falar achava que ela entendia do assunto e que já tinha feito muitas vezes, o que era falso, claro.
Cecília gostava exatamente disso, de ser o ápice do desejo. A única coisa chata era ter que dividir isso com sua irmã.
- Vamos convencer a Sofia de usar uma roupinha mais ousada pra amanhã, assim você sai na vantagem, Ceci. - Joyce concluiu.
- Duvido que ela tope. - Guta desafiou. Sofia era reservada e tímida.
- Tenho certeza que há um modo de convencê-la.
- Ela está afim do Erick, vai ser difícil. Vocês sabem como ele se veste. - Cecília revelou.
- Jura que ela tá afim do Erick? - Joyce surpreendeu-se, abrindo o maior sorriso sonso. - Eu achava que era do Renato...! Tava pondo a maior pilha nos dois...!
Guta fez cara de surpresa, mas ela já sabia de muito mais que as outras duas, então era melhor ficar quietinha antes que acabasse falando o que não devia.
- Fala sério, Joyce! - Cecília resmungou. - Se o Renato ficasse com a Sofia e não comigo eu ia morrer!! Ele é muita areia pro caminhãozinho dela.
- Sorte sua que ela prefere ser um caminhão de lixo, lembra daquele Marcelo com quem ela saia ano passado? Era um pesadelo aquele moleque. - Joyce não segurou a língua. - Ainda bem que você fez o favor de mostrar pra ela como ele não prestava!
- Ah não, gente... não vamos começar. - Guta reclamou revirando os olhos, mais do que de saco-cheio. - A Sofia ficou super triste com o que aconteceu, ela gostava do Marcelo. Ele não era tão mal assim...
- Ele beijava bem. - Cecília comentou.
A história era simples: Foi Sofia começar a namorar que Cecília fez de tudo pra atrapalhar, com ciúmes da irmã: Em um feriado eles foram para a casa de praia de Guta e na noite de sábado Cecília dormiu com ele. Toda a turma ficou contra Marcelo, por ser um canalha e ter se aproveitado de Cecília que estava bêbada... mas Guta teve certeza que Cecília fez aquilo de propósito, para separar os dois. Cecília não gostava de competir com ninguém e gostava de ser o centro das atenções, bonita e inteligente era comum os garotos se apaixonarem por ela. Normalmente ela dava o fora, às vezes ficava com um ou outro... mas todas as vezes que alguém preferia Sofia e não ela, a coisa mudava de proporção. E foi o caso de Marcelo. Ele não se apaixonou por Cecília e ficou com Sofia porque a primeira não quis nada com ele, como normalmente acontecia. Ele foi direto em Sofia, o que Guta tinha certeza que Cecília odiava. Era sempre assim. Mas se Sofia estivesse saindo com um cara que Cecília já tinha dado o fora, ela não ligava.
Guta estava um pouco preocupada a respeito do que rolava escondido entre Sofia e Erick por causa disso. Agora que sabia que Sofia também gostava de Erick o caso se complicava ainda mais... Erick precisava levar um fora de Cecília antes que ela descobrisse sobre os dois.
- Acho que Sofia e Erick combinam. - Guta provocou, para ver a reação de Cecília.
- Nem pensar. - foi o que Cecília disse. Já sabia que Erick preferia Sofia, ele mesmo confirmou tudo na sala do jornal. - A Sofia precisa de um intelectualóide que nem ela... alguém como o Adalberto.
- Eca, o Adalberto, não Ceci! - Joyce fez uma careta. - Não é ele que guardava uma foto sua no armário do vestiário e ficava beijando depois da aula de educação física? - André quem tinha dito, pois fora ele que vira.
- Guarda ainda. - Cecília a lembrou.
- Ele é muito esquisito, Ceci, melhor não... deve ser um psicopata!
- Mas ele faz mais o estilo dela, com certeza!
- Vamos provar umas roupas? - Guta mudou o assunto.
As duas outras garotas se animaram e foram arrastar Sofia para longe da vitrine cheia de canetas.
Renato com habilidade esquivou-se de André e com um salto enterrou a bola na cesta pendurada na porta da garagem. Era uma lavagem de pontos que ele estava dando em André, para variar.
André cansado secou o suor da testa com a manga da camiseta branca e segurou nos dois joelhos curvando-se cansado.
- Estou morto... vamos tomar um refresco e ficar na piscina enquanto ainda tem sol.
Renato virou-se para ele com a bola embaixo dos braços:
- Tudo bem.
Os dois amigos se dirigiram para dentro de casa, onde já da sala era possível escutar o som alto de uma música de metal.
- Argh, essa casa perdeu a paz. - André reclamou andando rápido até a escada. - Acredita que ele faz isso todo dia?! Não dá nem pra ver tevê! Erick! - berrou. - Erick!! Abaixa esse som, que merda!
- Eu acho que ele nem vai te ouvir. - Renato tinha razão. Se o som estava alto ali na sala, estava altíssimo dentro do quarto.
André subiu a escada e Renato o seguiu. Primeiro ele bateu na porta e como foi sem sucesso, a abriu. Para a surpresa de ambos, Erick estava dormindo por cima dos livros do colégio.
André tentou desligar o som, que tocava do laptop com caixinhas externas - barulhentas demais pro tamanhinho delas-, mas a tela de descanso pedia uma senha. Sem hesitar puxou a tomada do computador da parede, que não adiantou nada por causa da bateria interna. Renato se aproximou e desplugou as caixas de som.
O silêncio voltou a reinar naquela casa, apitando os ouvidos dos dois.
- Cara, não sei como ele dorme com esse barulho...! - André reclamou com irritabilidade.
- Deve ser surdo. - Renato brincou com um sorriso e André riu da piada. - Vocês não se dão muito bem, né?
- Mais ou menos, nem o conheço direito... - André saiu do quarto e Renato o seguiu. Enquanto foi descendo a escada, contou. - Tipo.. eu sabia que meu pai tinha um filho em outro estado, assim bem por cima... ele nunca falou muito no assunto e nem eu perguntei.
- Claro, estavam seguindo suas vidas. - Renato comentou apoiando o amigo.
- Mas daí há uns seis meses atrás esse tal de Gregory começou a ligar aqui em casa... a história aos poucos começou a fazer pauta dos jantares de família. - André entrou na cozinha e abriu a geladeira atrás de uma garrafa de água gelada para fazer o refresco.
- Que Gregory? - Renato ficou em pé esperando.
- O padrasto do Erick. Sei lá, parece que a mãe dele tava muito mal... meu pai disse que ela ficou bem doente. - André colocou a garrafa na mesa e pegou um pacote de suco de maracujá em pó. - E então ela morreu.
- Que droga...
- E foi então que a discussão aqui em casa começou, porque parece que o tal do Gregory expulsou o Erick de casa. - André jogou o pacote dentro da garrafa e com uma colher mexeu o suco.
- Isso é sério?
- É.
- Que esquisito, ele não se dava bem com o padrasto?
- Não sei. Acho que não, pelo visto.
- Nossa.... mas e a sua mãe? Como ela encarou tudo isso?
- No começo pareceu não gostar muito... depois se conformou.
- Que situação....
- É, faz parte. - André pegou dois copos e serviu com suco. Sentou-se na mesa para beber e conversar. Renato sentou-se também, pegando um copo.
- Por que será que o padrasto dele o expulsou de casa?
- Eu tinha achado que era porque ele queria curtir a viuvez no Caribe.... mas aí outro dia cheguei aqui em casa e o Erick e a Guta estavam bem loucos...
- Como assim? - Renato se assustou.
- Ah, bêbados.... Até eu entrei no barato... maior ressaca no dia seguinte, que foi bem o dia do jogo.
- Por isso que você tava um lixo..! - Renato compreendeu tudo.
- É, mas só que depois deu a maior confusão aqui em casa... o Erick é muito... - palavras faltaram à mente de André para definir seu irmão postiço. Pensou um pouco. - Ele não liga pra nada! Aí acharam as garrafas, porque ele nem lembrou de jogar fora escondido no lixo... e nessa noite rolou um negócio estranho...
- O que? Drogas?
- Não, foi uma espécie de jogo da verdade, uma troca de segredos. Cada um tinha que contar um segredo em troca dos segredos dos outros.
- Ah... e ai?
- E daí que um dos segredos do Erick era que ele bebia às vezes, lá em Brasília. Eu acho que deve ser por isso que o Gregory nem quis ficar com ele, né...
Renato espantou-se, erguendo suas duas sobrancelhas e abrindo bem os olhos.
- Será que ele não está em depressão, não?
- Como assim depressão?
- Ué... o que você ia sentir se tivesse sido expulso de casa, sua mãe morreu e seu pai de verdade também não te quer?
- É, faz sentido... Ele pode ser alcoólatra, ou quem sabe vende ácido!! Deve ser traficante de armas, também!
- Não exagera, André! - Renato ficou bravo. - Acha legal ficar fazendo piada dos outros assim? O caso é sério..!
- Eu sei, eu sei... desculpe. - André se calou. Naquele momento se sentiu pior ainda por ter dito besteira, visto que em nenhum momento havia parado um segundo para perguntar se Erick estava bem ou não, ao contrário, esse tempo todo agiu como se estivesse tudo bem, empurrando-o para cima de Cecília por causa do jornal.
- Mas ele realmente se veste mal. - Joyce retrucou pela milésima vez aquela noite sobre o mesmo assunto. As quatro meninas estavam em seu quarto, espalhadas em colchões, de pijama, depois de uma tarde inteira de compras.
- Ai, Joyce, queria saber se sua mãe ficasse coma por dezesseis meses, depois morresse, e seu pai biológico te arrancasse da sua casa logo depois do velório como é que você ia se vestir, hein?! - Guta estava irritada, segurando seu travesseiro.
As três meninas viraram-se para ela em uma expressão de susto, todas com os olhos arregalados.
- Ops... não era pra eu dizer isso. - Guta havia prometido não contar para ninguém. Agora já era tarde demais.
- A mãe dele tava em coma? - Sofia quase morreu com a notícia.
- E depois morreu?! - Joyce estava branca.
- É, é... - Guta queria se esconder. Agora ela não iria mais escapar do interrogatório!
- Isso definitivamente explica porque ele é um afetado. - Cecília foi maldosa no comentário.
- Ai, Cecy, você às vezes é ridícula. - Sofia ficou brava com a irmã e Cecília em resposta apenas jogou um travesseiro nela, que foi devolvido. - Para com isso!
- Ele deve ser psicopata. - Cecília provocou mais uma vez.
- Não estou achando graça.
- É sério, Sô, você devia ficar longe dele. - Joyce logo disse. - Isso tem cheiro de encrenca.
- Que isso, né gente! - Guta se intrometeu, porque não gostava do jeito que falavam com Sofia. - O menino tem uma história triste e vocês tratam como se ele tivesse vindo de um circo ou de um outro planeta. Qual o problema de vocês duas? O Erick é uma pessoa super legal e bem inteligente, tá?
- As fotografias dele são mesmo boas, tenho que admitir. - Cecília soou arrependida. Não queria caçoar dos problemas de Erick, só queria encher a paciência de Sofia.
- É, pensando bem, coitado... mas o André nem comentou nada comigo... disse que ele tinha sido expulso de casa.
- Nem foi, o Tio Márcio que entrou com uma ação em cima do padrasto do Erick... - Guta deixou escapar de novo, no calor da discussão, sem perceber. - Mas gente, isso é segredo, não pode sair daqui!
- Ihhh... já vi tudo. - Cecília comentou sem paciência. - A briga é longa, complicada e cheia de tramóias. Dá pra escrever uma novela!
- Coitado do André, nem sabe disso... - Joyce lamentou-se.
- Melhor nem remexer no assunto. - Guta desencorajou a amiga.
Sofia permaneceu em silêncio, perdida em seus pensamentos. Estava chateada porque agora tinha uma certeza mortal que conhecia Erick muito pouco e que ele se sentia mais à vontade em contar essas coisas para Guta do que para ela... e não entendia muito como isso era possível, porque ele fingia que estava tudo bem e sorria daquele jeito fofo, se estava passando por uma situação tão chata e tão difícil. Inevitavelmente a insegurança assolou a sua mente: por que Erick não confiava nela?
Para Sofia a noite acabou por ali.