| ESA #12 - A Festa de Joaquim (parte 1) |
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A festa de Joaquim não era nada parecida com o senso-comum esperado. O rádio ficava desligado, bem como todas as luzes da casa, havia velas iluminando e muito incenso perfumando o local. Na sala havia uma mesa de centro com garrafas de bebida desgelada e muitas velas que iluminavam uma roda de amigos que cantarolava Raul Seixas, Bob Marley e Legião Urbana, sem se importar se as músicas estavam sendo executadas com ritmo ou não, se estavam afinados ou não, o que importava era que não parassem de tocar.
Joyce estava com um vestido verde escuro de estampa simples de flores pequenas e verdes escuras, tomara-que-caia. Seus cabelos presos em um rabo de cavalo com uma fita vermelha decorando. Ela quem abriu a porta para André, com seu melhor sorriso, para fazer as pazes com o namorado. - Oi. - o cumprimentou, dando espaço para o namorado entrar na festa. O ambiente escuro deixou André impressionado, ele estava usando uma camiseta azul marinho e calça jeans. Sorriu sem graça para Joyce e beijou-lhe a face. - Oi Joyce, que decoração legal, hein... - comentou. - Oi Joyce. - Erick vinha logo atrás, daquele seu jeito de sempre: camiseta de banda, calça xadrez, seus piercings e spikes. - Vocês demoraram. - a garota reclamou fechando a porta. - Achei que tinham desistido. - Desculpe. - André pediu e ali mesmo na porta segurou Joyce para um beijo de novela. - É, já vi que é melhor procurar o que fazer. - Erick resmungou meio blasé e se afastou dos dois. Passeou um pouco pela festa cheia de pessoas esquisitas com dreads no cabelo e toucas coloridas - a maioria com cores da Jamaica. Haviam algumas velas para iluminar a casa e todas as luzes estavam apagadas - exceto as do jardim. No centro da sala avistou Cecília, sentada, cantando desafinada já alegre da bebida, cercada de garotos que a ajudavam com a letra da música. Berrando todos juntos, em um coro esquisito e alcoolizado. Isso o fez rir. - Erick! - Guta do outro lado da sala o chamou. A menina estava com um vestido branco de algodão e os cabelos soltos. Segurava um copo de cerveja e estava com as bochechas rosadas. - Puxa, você demorou! - O André é uma noiva, já estava me irritando. - confessou assim que se aproximaram. - Que lance esquisito essa festa, Guta... - Nem me diga, esse pessoal cantando então, é de querer morrer ou matar um! - Guta riu e estendeu seu copo de cerveja, mas ele recusou. - A Sophia está lá fora, antes que você ache que aquela bêbada ali é ela, vem, te levo lá. - Guta puxou a camiseta de Erick conduzindo-o até a porta de vidro que dava acesso à varanda e ao enorme jardim de Joyce, todo iluminado. Lá fora, ao menos, o barulho da gritaria era abafado pelo silêncio noturno do condomínio. O jardim era grande e rodeado por um muro branco que era iluminado por pequenas luzes no chão, bem fracas. Em um quiosque mal iluminado Sofia estava conversando com Renato. Ele estava com uma camiseta vermelho escuro com um número 33 nas costas, sentado com uma long neck na mão, que nem tinha bebido: - E aí no terceiro episódio tem um lance na casa que os quadros começam a se mexer... é bizarro. - Renato falava de um seriado de suspense e terror que assistia na televisão. - Levei cada susto... Sofia ergueu a cabeça e avistou Guta vindo com Erick. Sentou-se arrumando sua coluna e puxou a blusa branca para acertar em seu corpo. Estava se sentindo nua com o decote que Cecília fizera questão de usar, especialmente quando se lembrava que suas pernas estavam de fora por causa da mini-saia jeans, também escolhida por sua irmã. Era um acordo entre as duas: nas festas tinham que se vestir igual, isso desde pequenas. Naquela noite porém, Sofia queria estar o mais diferente possível da irmã, seu maior medo era que Erick se confundisse entre elas. - Oi!! - Guta chegou abraçando Renato e derrubou cerveja nele. - Ai, Guta, cuidado! - reclamou, ficando em pé. Constatou sua camiseta encharcada de cerveja. - Você é muito desastrada, olha o que você fez!! - Ops! - riu com suas bochechas rosadas. - Vem... eu te ajudo a secar. - É, quero ver como! - Confia em mim, Rê, vivo me sujando. - e logo deu o fora dali com Renato, deixando Sofia e Erick sozinhos. Guta era uma amiga cara-de-pau. Assim que os dois se afastaram Erick aproximou-se e Sofia ficou em pé. - Tudo bem? - indagou sem graça, com um sorriso tímido. - É... - a abraçou, com um beijo, longo e demorado. Beijaram-se durante um tempo, mas Sofia não estava à vontade. Interrompeu o beijo, sentando-se em seguida, com a cabeça baixa. Segurou na mão direita de Erick, em que ele usava um anel prateado no polegar. Ficou procurando como começar, não sabia o que dizer. - O que foi? - Erick logo percebeu que tinha algo de errado e sentou-se do lado dela, um tanto preocupado. - Desculpe... é que estava aqui pensando... - Sofia procurou escolher as palavras, levantou a cabeça para olhar para ele. - Acho que a gente devia se conhecer mais.... a gente se fala muito pouco. - É? - Erick não entendeu. - O que você quer saber? - O que você quiser me contar. Desde que conte. - ele deu de ombros, não sabia o que queria e estava se sentindo estranha. - Fala um pouco de você. Como era lá em Brasília? - Era normal... - respondeu evasivamente, com um sorriso. - Ah. - foi o comentário de Sofia. Não era bem isso que ela esperava escutar, mas teve certeza que ele não queria conversar com ela. Mesmo assim, resolveu insistir. - Tinha muitos amigos por lá? - Alguns... - Quem era seu melhor amigo lá? - Marcos, eu acho. - Da escola? - É.... - E como era a escola? - Chata. - continuou evasivo e olhou para o outro lado. - Mas era grande, pequena? Muita gente? Ia até que série? - Era só colegial. - E antes? Esse Marcos já tinha estudado com você? - É. Éramos vizinhos. - Ah.... sei. Sua casa ficava longe da escola? - Dava pra ir a pé. - E além de estudar o que mais você fazia? - Eu estou com sede. - Erick ficou em pé. - Vou buscar alguma coisa na festa... quer também? - Pode ser... - Tá, eu volto logo, me espera. - e saiu, deixando-a sozinha. Sofia teve certeza que Erick, definitivamente, estava fugindo. E com toda razão! Erick não queria ficar falando dessas coisas com ela. Não queria nem imaginar qual seria a reação de Sofia se soubesse das coisas com detalhes. Enquanto andava até a festa imaginou-se respondendo a última pergunta: o que Sofia diria se ele respondesse que normalmente não assistia às aulas e fugia da escola pulando o muro quase todo dia? Obviamente a garota ia replicar com mais uma pergunta digna de um interrogatório policial como "E o que fazia quando fugia?" e teria que responder a verdade: ele, Marcos e Guilherme iam até sua casa e ficavam jogando videogame até a hora em que Gregory chegasse em casa e colocava os amigos pra fora! Às vezes algumas garotas estavam com eles, às vezes outros amigos... o fato é que sempre tinha gente em casa, o tempo todo. Sexta à noite, se não tivesse que ir a alguma festa com Gregory, ia até a praça com os amigos, ou em outras festas. Onde estivesse ficava sempre bêbado. Voltava pra casa ao amanhecer. Fazia a mesma coisa no sábado... e às vezes tinha que ser carregado pra fora da festa, de tão mal que estava. Domingo era o dia em que Gregory o obrigava a acordar cedo para ir com ele no clube... onde não tinha nada pra fazer a não ser tirar foto enquanto seu padrasto almoçava e bebia a tarde inteira com os colegas de trabalho. Uma vez por mês mais ou menos Gregory fazia questão de ir ao hospital, visitar sua esposa. Era esse o pior dia da vida de Erick: ficar o dia inteiro sentado olhando para sua mãe mais inerte que uma planta... magra e fraca. Gregory sempre levava alguma coisa inútil como um livro e ficava lendo para Heloísa, às vezes chorava o dia inteiro e não conseguia ler nada, mas de praxe, Erick terminava o dia com dor de cabeça porque passava as horas naquele quarto tentando entender o que estava acontecendo... Era isso que fazia em Brasília. Não tinha nada de interessante, nada de correto. E por isso que Erick não queria falar e nem lembrar. Droga, se sentia tão inútil e tão culpado... - Erick, tudo bem? - Guta que estava perto da mesa das bebidas perguntou assim que ele se aproximou e encheu um copo de vodka. - É. Tudo. - Brigou com a Sô? - a garota preocupou-se. - Não... mas é que.... ela está esquisita, quer saber o que eu fazia em Brasília. Fica fazendo mil perguntas... - E qual o problema? - Não quero que ela saiba, Guta. - encarou o fundo do copo pela bebida, colocando o copo na boca. Se começasse a beber, sabia que não ia parar. Soltou o copo, desistindo. - É só curiosidade, acho que ela só quer conhecer você. - Pra quê? Não estou mais em Brasília. Guta não respondeu e bebeu sua cerveja quente, engolindo com culpa e lembrando-se do desastre que cometera na noite passada: contara sem querer uma boa parte das coisas. Joyce e André estavam se amassando no quarto dos pais de Joyce, por cima da cama. Joyce estava mais decidida aquela noite, beijava André com vontade e desejo. Os lençóis macios de seda e seus corpos eram iluminados por algumas poucas velas. Sabia o que queria: ir adiante, como escrevera na carta para André. Assim que André sentiu Joyce desabotoando seu cinto, afastou-se dela e segurou em suas mãos, interrompendo o clima. - Podemos ir mais devagar? - mirou em seus olhos na penumbra. - Como assim? - ela escorregou para o lado, sentando-se na cama, confusa. - Estamos no quarto dos seus pais, não acho isso legal. - sentou-se também, abotoando o cinto. - Parece que as paredes têm olhos.... incomoda. - Ah. - Quer voltar para a festa? - Pode ser. - sorriu tentando disfarçar seu descontentamento. Joyce havia se preparado para àquela hora, até levar algumas velas para iluminar o quarto ela levou, ele percebeu. Mas não conseguia, estava se sentindo estranho. Joyce era linda e perfeita demais. Não podia fazer isso! Precisava de um tempo para pensar. André ficou de pé e estendeu a mão para Joyce com um sorriso encantador no rosto, falso porém. Sorrindo em resposta a princesinha segurou em sua mão e os dois voltaram para a festa, descendo as escadas. Uma vez lá em baixo, André foi ao banheiro e Joyce foi sentar-se ao lado de Cecília, que imediatamente percebeu o rostinho chateado e o cabelo despenteado da amiga: - O que foi, Joyce? - O André está esquisito, de novo. - disse chateada, arrumando os cabelos e fazendo bico com os lábios sem batom. - Ah, mande-o catar coquinho! - Cecília bêbada respondeu, rindo. - Olha aqui quanto menino bonito!! - E brindou seu copo de hi-fi com os meninos que estavam cantando com ela. Um segurava o violão e era um moreno de ombros largos, o outro, um surfista loirinho de cabelo parafinado e o terceiro, um garoto de cabelos cacheados no estilo black power, mas era meio ruivo e cheio de pintinhas no rosto, com a camiseta do Bob Marley. - Ei, ei, Adriano, - falou com o garoto que segurava o violão, que usava uma bermuda marrom clara e uma camiseta do Che Guevara e fumava um cigarro fedido. - Canta uma música pra minha amiga, Joyce, ela precisa se animar e ninguém pode ficar chateado nessa festa! - Claro, Ceci, é pra já! - Adriano ajeitou o violão e tirou o cigarro da boca, prendendo no braço pelas cordas. - Vou cantar um repertório especial para você, gata... a música vai ser do Caetano, sabe? Começa assim... - fez um som e começou. - Você é lindaaaaa - e logo os outros entraram em coro com ele, desafinando toda a música, inclusive Cecília, que berrava mais que todos. Joyce gargalhou e resolveu que ia se divertir aquela noite, com ou sem André. Cecília estendeu para ela o copo de Hi-Fi, que a princesa bebeu todo de uma vez, como uma plebéia. Renato pela janela viu Sofia sozinha no quiosque com ares de chateação. Não era comum ela se isolar assim de todo mundo, normalmente ficava sorrindo, zoando junto com a irmã. Resolveu se aproximar e foi até o quiosque levando uma bebida para ela. - Sofia? - Oi... - respondeu. - Sozinha por quê? - perguntou estendendo para ela uma long neck. - Ah, nada. - a garota sorriu, segurando a cerveja e brindando com ele. - Estava pensando... - Você parece triste. - Um pouco, eu acho. - Quer conversar? - É segredo. - Você sabe que pode confiar em mim Sô. Somos amigos! - sentou-se do lado dela. - O que houve? - Ah, é o Erick. - desabafou, tomando um gole da cerveja. - Estou aqui tentando conversar com ele e só me responde de qualquer jeito, mal presta atenção no que eu tô falando! É irritante. - Ele é um pouco distraído mesmo... - mas Renato não entendeu porque ela queria falar de Erick. - Não se chateie à toa. - Tem razão. - Sofia sorriu fingindo estar se sentindo melhor, mas a verdade é que só ela ia entender porque estava tão chateada agora. - Vamos lá pra festa! A Cecília está engraçada, cantando com aqueles caras na sala, todo mundo está lá. - E ficou de pé. - Diversão é sempre bem-vinda. Ali naquele momento, tudo fez sentido para Sofia: era notável que Erick simplesmente havia se distraído e esquecido dela no quiosque, feito uma imbecil. Aborrecida, levantou-se. - É você tem razão, mas eu vou é pra casa. Cansei. - Quê? - Renato não entendeu. - Estou morta de sono! - e sem dizer mais nada, Sofia deixou o quiosque e sem entrar na festa, dando a volta pela lateral da casa, desapareceu. Renato coçou a cabeça e voltou para dentro da festa. Que coisa maluca, Sofia estava toda esquisita e mau-humorada! No mesmo instante que passou pela porta, Joyce o segurou pelo braço: - Rê, onde você tava! Vem aqui, tá super divertido! - e fez Renato sentar-se ao seu lado, na roda de cantores desafinados, jogando-se em seu colo. - Toca Raul! - ela pediu, entre gargalhadas. Renato ficou sem reação, com Joyce sentada por cima dele podia sentir seu doce perfume, digno de uma princesa das neves. Tudo nela era perfeito. O cheiro, o tom de pele, o cabelo, seu corpo... queria poder abraçá-la e beijá-la. Esses pensamentos iam de encontro com sua razão lógica que de imediato o puxou para a dura realidade: Joyce era namorada do seu melhor amigo. Para que não houvesse nenhum desrespeito, empurrou Joyce para o lado, fazendo-a sentar no chão e procurou concentrar-se na letra da música, que não conhecia mas tinha um refrão que repetia o tempo todo.
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