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| Dezenove não são vinte, mas... |
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Tendo transcorrido o ano letivo, fora alguns tropeços, havia galgado mais um degrau na série escolar. Agora, Biruba só queria saber de soltar sua pipa que tanto gostava. Aberta a temporada de caça aos jerecos!
Saiu à procura de bambus, isso não era difícil de encontrar, o que demorava um pouco era achar o que tivesse boa distância entre os gomos para fazer as varetas verticais, as que cruzavam ou horizontais essas eram mais fáceis. Depois de encontrados e bem escolhidos, começava o trabalho de transformar o bambu em várias varetas bem afinadas. Mais tarde, depois de separadas, de acordo com a sua função, seriam colocadas juntas de uma maneira que formariam a armação da pipa, faltando apenas encapar com papel fino para finalizar a obra. Embora no céu já aparecessem algumas provocando sua vontade, ele não tinha outra escolha, senão, a paciência de esperar o seu momento. Quando, finalmente estaria com todos os elementos prontos para começar a sua temporada. Ia confeccionando manualmente uma após outra, num trabalho artesanal. As armações por terem sido extraídas do mesmo bambu, tinham o tamanho igual, o que diferenciava era o acabamento, o desenho que recebia. Biruba gostava de inventar, de criar, o que acabou se transformando numa assinatura. Todos sabiam que se tratava de uma pipa feita por ele quando a avistavam no alto. Caveirinha apareceu no portão. Recebendo um aceno para entrar, subiu até a varanda da casa onde se encontrava o amigo rodeado de pipas. Preparava rabiolas. Pediu-lhe que desenrolasse as fitas para facilitar, no que foi prontamente atendido. Feito o serviço quis saber se havia mais alguma coisa em que poderia ajudar. Sim, tem uma lata cheia de vidro esperando para ser martelada, pode fazer isso? Claro, deixa comigo. Terminada as rabiolas foi ver como o amigo estava se saindo. Faltava pouco. Concluída a tarefa, retirou o que restava do vidro, coou obtendo um pó que parecia uma farinha de trigo, guardando-o num recipiente e virando-se para o parceiro disse-lhe: "está tudo em cima, vamos passar cerol na linha". Desceram até a rua para começar o serviço. Edvaldo apareceu em boa hora juntando-se aos dois. Então, com a ponta da linha na mão, Caveirinha afastou-se o máximo possível esticando-a, enquanto Edvaldo ficava parado estabelecendo assim a outra extremidade. Feito isto, Biruba correu até o começo da linha na mão de Caveirinha e veio passando o cerol até chegar no Edvaldo, terminando dessa forma a primeira etapa que era feita ainda com a linha esticada sem a pipa. Depois se completaria com ela no alto, determinando quanto de linha gostaria que estivesse coberto pelo cerol. Biruba foi até a varanda para escolher com qual das pipas iria começar os trabalhos. Escolheu uma quadriculada verde e amarelo, caprichou no cabresto, correu para junto do parceiro e profetizou: "vamos lá para o morrinho que eu quero ver quem tem coragem de me encarar. vai voar jereco para todo lado". Marcos, para melhor identificação tinha a alcunha de russo, então chamavam-no de Marcos o Russo. Também era um exímio soltador de pipa, assim como o Biruba, contudo, existiam pequenas diferenças entre os dois: Marcos não fazia suas pipas, portanto demorava um pouco para se saber qual era a que ele estava soltando, entretanto, observando a que estivesse cortando outras com uma certa facilidade e refinamento, com certeza esta pipa pertencia ao Marcos; ele morava algumas ruas afastadas do grupo ao qual pertencia o Biruba e raramente saia de perto de sua casa, - tinha que ter uma boa razão - então para conseguir arrastar, usava dois dez dos grandes; Os dois não eram grandes amigos, mas havia um respeito e admiração mútua que se traduzia no dia a dia através da direção que as suas pipas tomavam, normalmente opostas. Isto não quer dizer que eles não cruzavam entre si, e sim que deixavam o dia rolar naturalmente, cada um com seu cada um até próximo do anoitecer, se ainda os dois estivessem com as suas pipas no alto e dentro do raio de alcance, haveria com certeza uma peleja. Isso não era uma regra, apenas uma opção mais estrategista para os dois. Já haviam se enfrentado logo de cara anteriormente, mas concluíram que seria melhor limpar o céu primeiro, depois então se o destino os aproximasse é que veriam quem voltaria para casa com a sua na mão. Os jerecos estavam sofrendo com as descidas que a quadriculada do Biruba fazia para arrastar. Tava um salseiro. Pipa fugindo para tudo quanto era lado. Lembrava a cena de um T-Rex avançando sobre seus oponentes menores que tentavam resistir ao ataque, mas eram abatidos. Caveirinha observava o parceiro com admiração, impressionado. A habilidade como manuseava e fazia com que sua pipa buscasse cortar as outras eram incríveis, era praticamente impossível fugir ou resistir, o único jeito era arriar se não quisesse ser cortado. A contagem de quantas já havia cortado ficava por conta de Caveirinha. De vez em quando Biruba perguntava: "quantas eu já mandei?" E ele com o número na ponta da língua respondia. A quantidade de pipa era tanta que às vezes se arrastava duas de uma vez só. Como sua pipa era grande não havia problema quando acontecia esse fato raro. Também elas ficavam próximas uma das outras, acho que era para dificultar a aproximação, mas não adiantava muita coisa, porque conforme a quadriculada ia chegando os medrosos iam batendo em retirada e o que bobeava sofria as conseqüências. Se todos permanecessem juntos, não daria para cortá-los. Mas o grupo não era coeso, não estavam unidos quando era preciso. Na hora do vamos ver, cada um tirava o seu da reta e desmoronava o que poderia ser a única possibilidade de vitória, ainda riam e gozavam aquele que era cortado. É, parece que certas coisas começam mesmo na infância... Biruba teve que arriar um instante porque um fdp cortou parte da rabiola. Enquanto preparava rapidamente junto com o parceiro o pedaço que faltava, aproveitou para de novo perguntar quantas já havia mandado embora. Caveirinha, entusiasmado respondeu categoricamente: "foram dez." "Tá legal, já terminamos a rabiola, vamos lá que eu quero pegar aquele safado que me fez arriar", colocando no céu de novo a quadriculada. A vingança teve que esperar um pouco, pois o tal safado se encontrava atrás de um grupo de pipas, para isso era necessário primeiro cortar os da frente e só depois é que ele poderia alcançá-lo sem problemas. Então já que não tinha outro jeito partiu para cima dos que estavam mais próximos, voltando a aterrorizá-los, mas o que se há de fazer, botou no alto tem que aceitar as regras e se defender para não ser cortado. Sabe aqueles dias em que tudo dá certo, até cortar pipa pelo cabresto, pois é, esse era um desses dias. O safado então foi com requinte, cortou e aparou. Ato que não gostava de fazer, só para não ter que puxar a linha e estragar o ponto certo do cerol, mas fez questão de trazê-la e presentear o parceiro que ficara o tempo todo ao seu lado. Depois de desembaraçar a rabiola que estava enroscada na sua linha, da pipa que acabara de trazer, num gesto automático colocou de volta a sua no alto. Foi quando reparou que não havia mais ninguém para cruzar, tinha limpado o céu a sua volta. Virou-se para Caveirinha com um certo ar de desapontamento e perguntou: "Quantas afinal eu mandei, porque parece que não tem mais?" O amigo fez silêncio, olhou para cima procurando rever os acontecimentos, abriu um sorriso e... Foi interrompido por um ofegante mensageiro vindo lá das bandas do Marcos, que apesar da distância se encontrava na mesma situação do Biruba não tendo mais com quem cruzar, então mandava perguntar se aceitava o desafio, que se fosse um sim ele se aproximaria. Biruba procurou avistar em que posição se encontrava o rival, ele estava paralelo a si, só que longe, por isso não o tinha notado. Pensou e estabeleceu apenas uma condição: ele podia se aproximar, mas não queria vê-lo, já era suficiente a pipa. Antes que o garoto disparasse, segurou-o pelo braço e pediu que o avisasse para esperar quando já estivesse no lugar escolhido, pois o seu parceiro iria sinalizar dando início ao desafio. Enquanto a sua resposta levaria uns poucos minutos para chegar, Biruba aproveitou para verificar o quanto de linha possuía seu parceiro. Ele não sabia com precisão, mas achava que pelas suas contas talvez um dezinho e meio. Eram suficientes. Bastava conduzir o cruza de maneira que não fosse preciso descarregar muito. Olhou na direção de sua pipa, ao seu lado perfilada já se encontrava a do desafiante. Era boa à distância que os separava. Voltou-se para Caveirinha, pediu-lhe que fosse ao encontro do rival para saber se no caso de haver cruza com aparo, se é para devolver, aproveita pode mandar ele vir. Quando ele voltou com a resposta de que não era para devolver, o pau já tava comendo na casa de noca. Afora o seu parceiro, um grupo de moleques já se instalara em volta, acomodados de todas as maneiras para assistir - coisa rara de acontecer - o duelo entre os dois melhores do bairro. É o tipo de notícia que se espalha com rapidez. Parecia luta de boxe valendo o cinturão. Começaram se estudando. Um respeitando o outro, sabendo que um vacila seria fatal. Iam aos poucos aumentando a velocidade das investidas tentando ser mais rápido, mais letal, mais eficiente, mas um não dava bobeira para o outro. Assim a expectativa de quem assistia aumentava, ninguém se arriscava num prognóstico, porém todos olhavam com admiração para tanta habilidade demonstrada por ambos. Era um espetáculo o que assistiam agora, talvez demorasse a acontecer novamente. Biruba tentava controlar o nervosismo. O coração parecia querer saltar do peito de tanto que batia. Os olhos fixos no céu para não perder o controle, junto com o braço e a mão que faziam a pipa mexer sob o seu comando cada vez mais. Tentava de todas as maneiras que podia imaginar cortá-lo, mas não conseguia, Marcos era duro na queda. Foi quando teve uma idéia, mas teria que fazer parecer que estaria cometendo um erro. Esperou que ele se aproximasse deixando-o achar que iria revirá-lo, quando na verdade tinha um golpe bem armado - ajudado pela própria pipa. Com um determinado manejo, girou-a no sentido horário com agilidade, deixando-a pronta para arrastar por baixo da linha do adversário vindo até a mão. Tirando toda e qualquer possibilidade de reação, por mais que ele tentasse subir para fugir. Foi puxando com toda a velocidade que seus braços conseguiam, junto com passadas rápidas para trás, assim depois de muito esforço conseguiu cortá-lo. Cortou e cheia de linha. No conceito geral mandar cheia de linha tinha um valor muito importante, tanto que ao terminar só faltou ser carregado nos ombros, porque a gritaria até o Marcos deve ter ouvido. Pediu para Caveirinha enrolar a linha que iria arriar a pipa, não havia mais com quem cruzar. Enquanto a molecada se dissipava, passavam por ele com gestos de positivo ou algum tipo de elogio, lembrou-se que ainda não havia obtido uma resposta concreta quanto ao número de cortadas. Com a linha e a pipa na mão os dois caminhavam na direção de sua casa, lado a lado, quando para finalmente sepultar a sua curiosidade perguntou: "De uma vez por todas Caveirinha, me diga, quantas eu mandei hoje?", "Ih! Espera aí. Ah! Sim. Foram dezenove, contando com a do Marcos, mas eu considero vinte, afinal essa última vale por duas". "Vou dizer para você que é o seguinte: dezenove não são vinte, mas nesse caso...".
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