Essa história se desenvolverá através da memória de um menino, que depois de adulto, passa a recordar todos os momentos que vivera desde a sua primeira lembrança, quando ainda era um menino.
Lembra da praça onde morou, das brincadeiras que fazia na rua quando as meninas colocavam um anel entre as mãos e pediam para os meninos fecharem os olhos. Lembra também das amarelinhas, da queimada, das pipas, do roubo dos cavalos que praticava para matar as aulas, da pequena represa onde aprendeu a nadar, da árvore, cujo galho era tão forte que ultrapassava o rio, onde nadavam. Do barranco que subiam somente para saber que era o mais rápido, das cobras, do tiro de sal que levavam quando roubavam espigas de milho e abacate do sítio dos outros, do acampamento, do cacho de abelhas que caiu na cabeça do irmão, do futebol de salão, do pai que batia nele, do irmão que arrebentou o vidro do cinema, da linha do trem, dos irmãos que sempre brigavam quando jogavam bola, do velho que morreu segurando um balão de oxigênio, dos galos de briga, dos vira-latas que tinha, da cueca que escondiam antes de ir para a escolinha primária, dos apelidos dados aos moleques, dos passarinhos, das empregadas domésticas, da primeira namorada, do sargento que foi chifrado por um colega dos meninos, da lagoa em que pescavam, do cassino dos sargentos onde jogavam sinuca, do sargento que morreu num acidente de automóvel por estar embriagado, do tênis que era grande e teve de botar papel para preencher o espaço, do medo provocado pela sombra do poste, da ladeira do saci, dos carrinhos de rolemã, do cara que só se vestia de azul, das brigas, do cara que adorava empregadas e que tinha um cabelo que parecia um pé de alface, do dia em que o pai o colocou para trabalhar numa obra cheia de peões, das músicas da jovem guarda, do menino boiola que gostava de bolinar e transar com os outros moleques que espreitavam tudo atrás das moitas se masturbando, do dia em que pegou um dinheiro na gaveta do outro e se arrependeu, dos grandes churrascos feitos dentro do mato pelos pais, dos banhos de chuva que tomavam na ladeira escorregadia, do velho Oldsmobil do pai, da menina Sandra que era bonita e que o menino quando percebia a hora dela ir para o colégio, saía antes de casa e caminhava um quarteirão inteiro só para ganhar o lindo bom dia dela, dos cavalos que roubava com a ajuda de outros meninos, da época da admissão, que era um uma espécie de curso preparatório para o ingresso no antigo científico, das aulas que matava no colégio, do tempo que levou para terminar o antigo científico, das aulas do curso de supletivo, do pré-vestibular e do professor com jeitinho de boiola, dos galos de briga, do tesão que dava quando via um cachorro trepando na cadela, das empregadinhas domésticas carregadas com aquele perfume inebriante, das colinhas praticadas na escola e que eram cuidadosamente deixadas dentro da manga da camisa, dos tapas dados na orelha dos caras mais feios da turma, do amigo que só urinava fora da privada e era chamado de tortinho, dos bilhetes que eram deixados na parte de baixo das carteiras da escola para que a menina da turma da tarde respondesse, do acampamento que fazíamos no meio do mato, dos puns que soltávamos quando nosso colega arrumava uma namoradinha, das calças boca-de-sino, das botinhas do tempo da jovem guarda, do dançar agarradinho na menina mais bonita da rua, das festas americanas regadas com cuba libre, do falso bigode que colocávamos na cara para que o vendedor de bilhetes no cinema pensasse que éramos maior de dezoito anos, das prostitutas que davam desconto só para vermos seus peitinhos, da menina filha de um cara importante que engravidou, da outra que pegou doença venérea e que de tão envergonhada teve que mudar-se para outro bairro, do amigo que foi preso roubando a bicicleta do vizinho, das pipas que soltávamos com a intenção de cortar os balões ao meio, das sacanagens que fazíamos com as galinhas enfiando o dedo nelas, do cuspe a distância, do amigo que tinha um terrível mal cheiro de sovaco, do outro que não gostava de tomar banho e tinha placas de sujeira no pescoço, da nossa colega que tinha complexo do cabelo duro, da outra que nunca tinha beijado ninguém porque seu rosto era cheio de espinhas, das festas juninas onde queríamos dançar somente com as mais bonitas, das outras que teimavam em manter as pernas cabeludas, da boina que eu usava porque queria parecer um "partisan", do vício em assistir diariamente os três patetas, do vigilante rodoviário cujo cão rintintim era o meu maior ídolo, dos filmes de Nacional Kid, das séries maravilhosas do Flash Gordon, da seção de aventura de Mod Squade, do Túnel do Tempo, Terra de gigantes, da eterna namorada do mundo minha querida Feiticeira, de uma série imperdível chamada Ivanhoé, daquela musiquinha maravilhosa do comercial da Varig, Varig, Varig, do Simca Chambord, do imbatível Aero-Willis, daquele carrinho maravilhoso chamado de Gordini, das Vemaguets horríveis de dois tempos, da velha e saudosa Lambreta, da Jovem Guarda com aqueles caras cabeludos e costeletas horrorosas.......
Que saudade eu sinto de tudo isso, mas ainda bem que consegui vivenciar essas coisas maravilhosas. Ainda tem mais....