Sansão Imprimir Enviar para um amigo
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RuimÓtimo 
17 de junho de 2008
Existem tais acontecimentos, os quais marcam tão indelevelmente uma vida, que somente tempos depois, se tiver sorte, você relacionará a causa ao efeito. Aconteceram comigo tais fatos, e hoje meu fardo é enorme, com o peso das lembranças que carrego vindo de uma fase ao mesmo tempo alegre e insana
de minha existência.

Minha esposa Ana vinha de uma família distante, e raras vezes víamos seus irmãos e sua mãe, a qual mal escondia o incômodo que demonstrava nas poucas tentativas que fazia para comunicar-se com a filha. Tendo somente a mim, Ana, com sua exótica beleza, extrovertida e comunicativa, partilhava comigo um certo pendor pela solidão. Adorava animais, particularmente cães. Confesso que eu sofria muito com o pensamento de despender parte da minha energia com os cães, mas era plenamente solidário à sua devoção , e invariavelmente terminava por me afeiçoar aos bichos. Certa vez tínhamos meia dúzia de animais em casa.

Havia um dos animais que era especialmente objeto dos afetos de minha esposa. Era um macho de porte pequeno, olhar esbugalhado, muito inteligente (o quanto pode ser um cão) ao qual foi dado o nome de Sansão. Onde Ana estivesse Sansão também estaria, silencioso, carente, mas principalmente obediente, e talvez esse fosse o motivo dos cuidados com o qual minha querida o tratava. Na minha ausência durante o dia, e à noite, nas horas em que sozinha, ela costurava no andar térreo do sobrado, Sansão era uma companhia preciosa.

Esclareço agora um ponto importante. Ana sempre tivera visões. Sim, por algum viés psicológico, que eu nunca cheguei a entender perfeitamente (apesar de às vezes ter estremecido de pavor !) ela possuía esse poder. Quantas vezes eu quase adormecido, despertava apavorado com os gritos vindos da sala de costura, e ao correr desesperado para socorre-la, surpreendia-me com a calma com que ela descrevia o que havia visto. Vultos de branco que esvaeciam-se ao serem encarados, homens inescrutáveis de ternos escuros, que desapareciam em segundos, crianças pálidas que em grupo atravessavam o espaço abaixo da escadaria em direção a lugar nenhum, coisas assim, as quais felizmente diminuíam a medida que nosso amor aumentava

Ana, apesar de expansiva, tinha poucas amigas, preferia ficar em casa, e eu, com os negócios ocupando-me doze horas por dia, agradecia ao fato de ter em casa um cão que amenizava a solidão de minha bela esposa. À noite, quando eu chegava à casa, no afã de sentir no corpo e na alma todo o calor de um lar feliz, encontrava Sansão esperando-me à entrada, e ambos corríamos para Ana. Eu amava minha esposa infinitamente, e bastávamos-nos a nós mesmos, mas a vida não perdoa eternamente tal exclusivismo, e então o destino agiu.

Havia na vizinhança uma residência antiga, cujos proprietários mudaram-se, e o novo dono iniciou sua demolição. O terreno era grande, e o entulho acumulado logo tornou-se abrigo de ratos. Ratos que se tornaram por algum desconhecido milagre da genética, em enormes ratazanas, as quais logo começaram a nos visitar. A solução sugerida por Ana para findar tal indesejável comportamento, foi aniquilar os invasores com veneno. Um veneno tão perigoso que era adquirido quase na clandestinidade. E assim, enquanto aguardávamos a limpeza do terreno, os ratos foram sendo mortos.

Passaram-se poucas semanas e como sempre as causas geram seus próprios efeitos. Assim, em uma tarde morna de Domingo, enquanto eu estava no andar superior, entretido com alguns documentos, um grito lancinante ecoou pela casa, e ao descer, apavorado, deparei com Sansão, já estendido no solo da varanda, estremecendo em convulsões, e Ana ao seu lado, chorando desesperada. Mais tarde, olhando para Ana como se a estivesse vendo pela primeira vez, escutei sua voz entrecortada relatar o que ocorrera. Ao preparar o terrível veneno ela esquecera a isca já pronta no chão do nessa hora já escuro quintal, e Sansão simplesmente a ingerira.

Acredito piamente que um destino cósmico une todas as forças vivas do Universo, e quando um ser que consideramos inferior, mas que é muito querido, abandona esse mundo, é um fragmento precioso de nossa alma que devolvemos ao infinito. Assim enterramos Sansão no dia seguinte em um local especial do quintal de nossa casa, e Ana demorou a se conformar, até remover de seu cérebro o fantasma insone do remorso.

A vida continuou, pensamos em ter um novo cão , mas nunca chegamos a realizar esse desejo. Novamente vivíamos felizes, Ana não mais falava das suas aparições, que eu acreditava já fazendo parte de um passado sombrio, mas após aproximadamente um ano nosso karma manifestou-se, inesperado e terrível. A saúde de minha esposa, com sua compleição frágil, sempre me preocupara, suas imprevisíveis tonturas nunca puderam ser totalmente decifradas, até que o diagnóstico terrífico nos atingiu como um raio. Ana estava com câncer.

Passaram-se então semanas, e nas idas e vindas a centros médicos e laboratórios, após finalmente constatar-mos a gravidade da situação, decidimos que Ana não se internaria, que permaneceria em casa, na casa que ela tanto adorava, e no meu imenso egoísmo, junto a mim. Oh desígnios ocultos do Cosmos, Oh caprichos insondáveis dos Deuses do Universo, o Amor total e apaixonado entre dois seres humanos é tão magnífico, tão naturalmente improvável que sempre que tal fato ocorresse deveria ser imortalizado, tal era o meu doloroso e inconformado pensamento.

Ana continuou no nosso quarto, agora em um leito só dela, e a doença parecia progredir rapidamente. Aos poucos fui percebendo que suas visões haviam retornado, e muitas vezes do escritório, ouvia sua voz, em alguma espécie de diálogo, aonde o interlocutor era inaudível. Confesso que houve uma noite em especial que ouvi, em um arrepio de horror, vindo do quarto, um breve ganido de um cão, logo encoberta pela voz de Ana, em um tom claramente recriminatório. Nunca mais ouvi tal coisa, e logo esqueci o fato.

Foi contratada uma acompanhante, Amanda, uma jovem prestativa, olhos negros e perscrutadores, e uma empatia imediata, tanto quanto possível em tal situação, surgiu entre ela e Ana. Amanda a amava como se fosse sua irmã mais velha, senão sua mãe, e quedou-se seduzida pelo carisma inegável de minha esposa, agora quase delirante. Poder-se-ia dizer que um estranho vínculo de submissão e indulgência nasceu e crescia célere entre as duas mulheres.

Dos castelos sombrios da velha Inglaterra, dos penhascos inabitáveis que circundam uma certa fortaleza na Romênia, do fundo escuro de um tenebroso e visitado lago na Escócia, de nenhum lugar medonho e lúgubre que pudesse algum dia existir, não poderia vir a neblina espessa e inefável que em uma noite chuvosa de Sexta feira se abateu sobre nosso outrora feliz Lar.

Naquela ocasião eu estava no escritório, quando aproximadamente às vinte e três horas ouvi um contínuo e indecifrável som no quintal, o qual eu podia vislumbrar por inteiro pela janela, apesar da espessa escuridão dominante. Após algumas inúteis tentativas de localizar a fonte do ruído, e como esse após algum tempo tivesse finalmente cessado, voltei a meu trabalho, mas não demorou muito para a tempestade que para sempre deixou seus escombros na minha mente infeliz, desabasse sobre nossa casa. Os passos nervosos e inconfundíveis de Amanda fizeram-se ouvir no vão da escada e eu atentamente aguardei sua silhueta surgir à porta , porém um sobressalto subliminar percorreu minha mente, ao ouvir o arfar descontrolado de sua respiração que se aproximava. Hoje e sempre, quando conto essa história, numa catarse interminável e infinita, ainda estremeço quando relembro a visão terrível que ante mim se apresentou naquele horrível momento.

O olhar esgazeado, o corpo rígido, as mãos trêmulas acenando para mim, a boca espumante balbuciando coisas interditas, ali estava Amanda, ou o que antes era Amanda, o mesmo corpo, porém mergulhada em uma dimensão fantástica, expondo um pavor infinito em cada átomo seu. Pus-me de pé imediatamente, tomado por um medo irresistível, desconhecido, osmótico, e assim que ela viu que eu estava pronto, deu meia volta e cambaleante desceu as escadas, sem que não antes se virasse para verificar se estava sendo seguida.

A sala estava escura, o longo corredor exibia à frente do nosso quarto uma réstia luminosa que atravessava a porta que guardava o leito de Ana. Amanda estancou aí, olhando para mim e para o quarto, com a mesma aparência fantasmagórica. Sua adorada senhora conseguira finalmente seus serviços fúnebres. Corri para o quarto empurrando a serviçal para o lado, e o que vi naquela sinistra noite, naquele ambiente impregnado de um odor sepulcral, através das brumas misteriosas dos segredos inconfessáveis da morte, o que vi naquele instante até hoje está gravado nas profundezas das minhas células, e nas raízes agora encanecidas de todos os meus pêlos. Ana estava morta. Seu aspecto era inconfundível, eu que a conheci em toda sua plenitude e decadência. Seus olhos abertos e estáticos exibiam uma ternura desconhecida para mim, e o macabro objeto de sua atenção jazia a seu lado, estendido nos fartos e alvos lençóis.

De alguma maneira Amanda soubera que seria a última noite de vida de Ana, e de alguma maneira conseguira realizar seu último desejo. O esqueleto de um pequeno animal, ainda coberto de farrapos de carne corrompida se aninhava sob um dos braços estendido de minha inesquecível esposa. Entendi de repente a origem do espantoso som que tanto me intrigara. Era Amanda cavando em desespero a terra úmida do quintal, na escuridão e no frio, buscando frenética o troféu que demonstraria à sua ama sua total submissão, sua total admiração, diretamente da cova para a dona, o corpo querido, arruinado e putrefato de Sansão.