| Café esquentado por ouvir palpite errado |
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Existem pessoas que parecem que nascem com alguma coisa especial. Algo que as difere das outras naturalmente. São pessoas desprovidas de preconceitos; que fazem amizade rapidamente; que não passam por esse mundo sem serem notadas. E dentre essas, se inclui, "Café".
Era um grupo de garotos que a idade média ficava ali na casa dos doze anos. Isso dos que brincavam juntos praticamente todos os dias. Alguns moravam na mesma rua. Era o caso do Biruba, Gaguinho, Jerônimo, Edvaldo, Edinho e o Luizinho Português. Outros em ruas vizinhas como: Nielsen Caveirinha, Celso, Flávio, Beto, Zé Urubu e Piolho. E havia os que ficavam mais distante, entre eles há de se destacar o Julinho e o Marcos. O primeiro por ser uma unanimidade no quesito rejeição; e o segundo, por ser muito habilidoso ao soltar pipa. Numa dessas tarde estavam alguns reunidos se preparando para jogar bola, quando foram surpreendidos pelo aparecimento de um novo rosto se aproximando. Viveram uns minutos de grande expectativa diante da chegada desse estranho. De repente pareciam hipnotizados. Ninguém falava. Não olhavam para outra direção que não fosse para ele e cada um dentro do seu próprio silêncio se perguntava: "Quem é esse garoto?", "De onde apareceu essa figura?", "O que ele tá querendo vindo até aqui?", essas e outras perguntas, só seriam respondidas depois que finalmente já próximo da turma foi aberta à porta que guardava todas as respostas: "Oi pessoal! E aí tudo bem? Meu nome é Leônidas. Cheguei ontem com os meus pais de mudança para cá. Será que dá para brincar com vocês?" Era pouco, eles queriam saber mais do estranho. Sem querer ser, mas parecendo um interrogatório, ou, até aquelas entrevistas para saber se o candidato preenche os requisitos, começou uma seqüência de perguntas para avaliação: "Quantos anos você tem?", "Quatorze", "Sabe jogar bola?", "Sei", "Sabe soltar pipa?", "Sei", "E bola de gude?", "Jogo", "Sabe rodar pião?", "Também sei", "Sabe bandeirinha e carniça?", "Sei", "E amarelinha?", "Tam... peraí, que negócio é esse, vocês brincam de amarelinha?", "Que isso cara, foi só brincadeira", disse Biruba. E para terminar, era de praxe saber qual o time que ele torcia. Caveirinha querendo sacaniar foi logo perguntando: "Que time é teu?", voltou de bate e pronto, "Bola na rede teu cu é meu!", gargalhada geral e gozação pra cima do Caveirinha que por essa não esperava. Bem, depois dessa, tava aprovado com louvor e se juntou ao grupo em direção ao campinho. No caminho ficaram sabendo que ele torcia pelo Vasco. Nesse dia, exatamente quando acabavam de chegar no campinho para dar início ao ritual que dividia um para cada lado, se juntou ao grupo o Celso. Como habitualmente fazia quando encontrava o pessoal, já estava ele sacaniando um, arriando o calção de outro, enfim, exercendo seu ofício predileto o de ser um grande sacana, e aí, foi que chamaram-no para apresentá-lo ao novo morador do bairro. "Celso! Chega mais!" Deu uma corrida se aproximando. "Este aqui é o Leônidas que você ainda não conhece, ele vai jogar com a gente, tá legal?" "Tudo bem. Prazer. Caraca mané! Você é da cor de café; parece até um boneco feito com barro de café". Biruba gritou preocupado: "Qual é Celso! Dá um tempo pô!" Se não ele daria asas à imaginação, proferindo um festival de besteiras que não pararia tão cedo e o jogo, que é o que interessava, demoraria a começar. Durante o jogo todo o que mais se destacou foram os berros de: "Passa a bola Café!"; "Marca ali Café!"; "Chuta para o gol Café!"; "Volta um que o Café tá sozinho!" E foi assim e muito mais a tarde inteira. Que possam perdoá-los, aqueles que escolheram com tanto amor e carinho o nome daquela criança e, tiveram o trabalho de ir ao cartório para fazer o registro de nascimento e posteriormente o batismo, consolidando assim com muita alegria e confraternização entre os seus, com aquele que futuramente, sem que eles tivessem a menor chance de se defenderem, ficasse conhecido pelo apelido de "CAFÉ'". O tempo e a pessoa tinham se encarregado de tornar conhecido o nome. Não havia no bairro quem nunca o tivesse pelo menos escutado. Café como tinha quatorze anos, brincava com os mais novos e flertava com os mais velhos, mas lá nesse grupo ele era o caçula, portanto, os marmanjos zoavam muito com ele, tudo numa boa, eles gostavam dele, também quem não gostava? Certa vez, procurando o Biruba, Café pediu se ele podia fazer uma pipa daquelas que costumava soltar. Um piãozão bem bonito. Queria se sentir o terror do céu. Podia sim, tinha preferência por algum desenho em especial? Não. Então, tá bom. Faria uma sem cobrar nada para o amigo. E para quando desejava a pipa? Ah! Quando você puder, só não esquece! Ta legal, quando estiver pronta eu te procuro. Como já possuía algumas varetas prontas para fazer a armação das suas pipas, separou três varetas, preparou a armação e encapou com duas folhas de papel na cor branco e preto, fazendo parecido com a camisa do time do Vasco só para deixá-lo mais feliz. No dia em que recebeu, parecia pinto no lixo, sua felicidade era tanta que seus olhos eram as janelas do brilho de sua alma. Sua boca além de mostrar bem todos os dentes alvos que possuía, ainda proferia aos berros palavras em profusão de tanto contentamento. Abraços e mais abraços. Naquele instante, notava-se como um quase adulto permanecia a mais criança de todas as crianças ao receber seu presente, que para ele deveria ter um significado muito grande, pois os agradecimentos foram tantos que o Biruba teve que interromper um pouco. Havia uma recomendação que gostaria de fazer: que os dois não iriam cruzar um com o outro. Entendido? Sim. Café partiu que nem uma bala para casa a fim de preparar sua pipa, fazendo o cabresto, a rabiola acompanhava o presente, passar cerol na linha e finalmente fazer subir o piãozão que ansiosamente esperara. Biruba organizou suas coisas e foi para a rua a fim de conseguir um lugar bom para cruzar. Caveirinha apareceu para chamá-lo, mas não foi preciso, pois ele já se encontrava a meio caminho, então, se juntaram e seguiram para o local que seria o escolhido para subir seu piãozão. Ficaram ali durante um bom tempo, enquanto às outras pipas puderam resistir. Como não subia mais ninguém dentro do raio de alcance, somente dava para ver algumas mais distantes, lá para os lados do campinho, se ajeitaram e partiram para lá. Conforme foi se aproximando, teve jereco que tratou logo de baixar com medo de ser cortado, os poucos que ficaram, resistiram bravamente escapando, se esquivando, se escondendo toda vez que ele afundava tentando arrastar alguém. Como estava tão concentrado no que fazia, não reparou que do outro lado da rua, na esquina oposta a sua, foram chegando aos poucos, formando um grupo de uns oito ou dez dos mais velhos e no meio deles estava o Café, sentando como todos os outros pela grama do local, com a pipa que ele havia presenteado-o na mão. Biruba continuava seu intento que era cortar aqueles jerecos que já estavam dando muito trabalho. Caveirinha alertou-o para o fato de que do outro lado Café estava colocando a pipa no alto. Ouviu, olhou e ficou pensando qual seria sua intenção. Enquanto isso conseguiu mandar um só no cheiro, mas ainda restavam uns três. Finalmente ficou sabendo das intenções do Café, ele se aproveitou do vacilo que uma deu e também botou mais uma para o vento carregar lá para plantação de urtiga. Os seus amigos mais velhos gritavam incentivando-o para que cortasse mais uma. Agora restavam duas e eles dois procuravam cortá-las, o que não demorou muito, com duas se alternando no ataque ficava difícil resistir por muito tempo. Dava gosto ver sua obra no céu, mesmo sendo pela mão de outra pessoa, arrastando, cortando e também figurando com ar imponente. Quando tudo se encaminhava para terminar como mais um dia perfeito. Alguém do grupo sentado perto do Café, gritou para ele: "Como é que é Café! Não vai cruzar com ele não?" E o coro dos demais não foi diferente, todos incitavam para que ele fosse para cima do Biruba. Olhou para o Caveirinha, não precisava dizer nada, ele já conhecia a história da pipa. Então, procurou encarar os olhos do Café para saber se ele ia aceitar a provocação dos outros e não conseguiu. Ele olhava para a pipa. Com certeza pensava no que fazer. Esse dilema por si só, já deixava Biruba chateado, tinha feito um trato, esperava que houvesse um mínimo de consideração, mas infelizmente é nessas horas em que surgem os: Por que não? Que mal há nisso? Ah! Ninguém sabe do combinado! Então, é aí, que o capetinha da nossa consciência vaidosa sussurra nos nossos ouvidos que somos tolos. Que tudo pode. Até romper um trato e trair um amigo, só para mostrar aos outros que somos melhores. Soberba. Esse é o pecado que simboliza o impulso de nos acharmos acima dos demais. Tomada a sua decisão, partiu para cima da pipa do Biruba - incentivado pelo grupo - disposto a cortá-lo, mas a tarefa não era tão fácil assim. Ele teria pela frente um oponente que estava acostumado a esse tipo de investida e que dificultaria por demais o seu intento. Além de se defender, Biruba contra atacava tentando cortar o mal pela raiz. Agora não havia mais tempo para sentimentalismo bobo, tinha que vencer para baixar a crista do Café entusiasmado com os gritos e os palpites de como deveria proceder para se sair bem. Entre um ataque e uma defesa e uma defesa e um ataque, finalmente as duas pipas se enroscaram linha com linha. Era um tipo de cruza em que se tem que descarregar a linha deixando as pipas soltas, sendo levadas pelo vento, mesmo que o vento seja apenas uma brisa e que o peso delas acabe por fazê-las aos poucos baixarem indo de encontro ao chão. Ninguém se atreve a esticar a linha - parando a mão como se diz. A expectativa nessa hora é geral, mas é maior a tensão e a adrenalina para aquele que se encontra envolvido. Como no caso do Biruba, que via sua linha acabar e olhava para a lata do Café cheia de linha dando-a autonomia por um bom tempo. Isso era ruim. Caveirinha ia tirando a linha e espalhando no chão para facilitar, se adiantando - caso ela terminasse - a fazer um nó amarrando assim o final com o início do seu rolo de linha. Foi o que aconteceu. Sentiu que a sua terminara quando passou pela sua mão o nó que indicava que a partir daquele momento tudo dependia do quanto de linha haveria no rolo do Caveirinha, não era muito, mas dava para agüentar mais alguns minutos. Agora, não tinha outra coisa a fazer senão esperar que o Café entregasse os pontos, mostrando que não possuía paciência suficiente para esse tipo de cruza ou então, que as pipas baixassem até o chão, para essa possibilidade, seu parceiro se preparava para correr até aonde elas se encontravam. As pipas agora começavam a desaparecer atrás de umas mangueiras altas. Seu parceiro retirava dos pés o chinelo para melhor correr. Quando do meio do grupo, uma voz soou lá no meio, não se sabe de quem, era apenas um palpite, mas vibrou aos ouvidos do Café como uma ordem: "Café, para a mão! Para a mão, Café!" Quem sabe seu desespero fosse tanto, que o som daquela voz o pegou tão de surpresa que sua reação foi a de obediência imediata, o que foi fatal para ele. Parando de descarregar sua pipa voou. O que se viu depois foi à pipa do Biruba aparecendo por de trás da mangueira, os dois companheiros vibrando e ao mesmo tempo aliviados pela tensão que tinham passados juntos com esse cruza. Pois, estava em jogo um desafio lançado para saber quem era o melhor e diante de uma platéia que tinha provocado essa situação. Portanto, era natural nesse momento se ouvir os palavrões, cada um mais feio do que o outro, que o Café dirigia ao pessoal, muito pau da vida. Eles só faziam rir muito. Brincavam, gozavam, tiravam sarro com a cara dele, que de tanta raiva que sentia até chorava. Também se poderia dizer que se misturava com o choro dos derrotados; dos que sonham com um momento de glória, e aprendem, quando aprendem, que não é dessa maneira que irão trilhar o caminho do sucesso. Não ficou nenhuma magoa por parte do Biruba. Pipa no alto é para cruzar. Apenas não faria mais nenhuma para o Café. Viu, quem mandou ouvir palpite errado. É nisso que dá. "Bem feito. Seu nariz é malfeito. Me dá um martelo que eu endireito".
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