O Sol forte do deserto iluminava as dunas que se estendiam em todas as direções. O céu insuportavelmente claro não permitia ao homem solitário perceber a paisagem que o cercava. Seu nome era Hazir, e seus pensamentos naquele momento estavam muito distantes, precisamente numa pequena cidade nas encostas das montanhas, no interior do país. Na sua memória uma cena trágica reluzia insistente. Havia um homem caído no chão de uma sala, com um profundo ferimento no crânio, e ao seu lado uma pesada e antiga tranca de porta. Hazir lembrou-se da causa da tragédia, do desatino do dia anterior.
Ele sempre fora negociante, seu pai o era, e ele estudara para isso, devotara sua vida à sutil arte da compra e venda, e muito naturalmente formara sua empresa de comércio de diamantes, juntamente com um sócio fancês, seu amigo Jean. Os dois completavam-se em suas diferenças, mas Jean dominava sempre. Hazir sempre cedera.
O tempo passou e no seu espírito árabe incrustava-se lentamente o germe do ressentimento. Hazir, filho dos Tuaregs, os orgulhosos homens do deserto, era tolerante, mas quando o líquido transbordava, o fel derramava-se com espetacular fúria.
Nesse ponto entrou Tamanra, linda, inteligente, jovem, e acima de tudo despachada, movendo-se com total liberdade no universo masculino do comércio de jóias. Cercada de entusiasmados pretendentes, sua atenção voltou-se para Hazir, mas o árabe ainda não estava preparado para tal sentimento. A força da paixão que os atingiu impulsionou como bólidos as duas almas em um choque catastrófico. Não demorou para que tal paixão cobrasse seu preço. Tamanra, sofisticada, com seus dispendiosos hábitos, envolveu Hazir de tal maneira, e este por sua vez entregou-se tão completamente à ela, que as conseqüências foram inevitáveis.
No negócio de jóias , Hazir e Jean tinham um trato. O lucro era divido ao meio. Hazir, com gastos cada vez maiores, foi tomado pela cobiça. Logo começou a buscar o lucro rápido. Jean tinha os contatos com os compradores europeus, e isso o mantinha no topo do relacionamento, o que acendeu no árabe o fogo de ressentimentos ancestrais. No seu cérebro apaixonado e atormentado, as diferenças culturais entre eles exarcebaram-se. Então ocorreu a tragédia. Numa terrível discussão sobre lucros, Hazir atingiu o francês mortalmente. No seu desatino, a velha tranca de ferro tornara-se uma vingativa cimitarra árabe. Quando percebeu o que havia feito, fugiu desesperado.
O deserto brilhava no ápice do verão, e as montanhas ao sul ficavam cada vez mais distantes, enquanto o jipe avançava pela estreita trilha varrida pela fina areia amarela. Hazir olhou o velocímetro e percebeu que já havia percorrido cem quilômetros. A próxima cidade estava distante algumas centenas mais. Ele pretendia ir até a capital e depois voar para a Europa. Eram onze horas da manhã quando ele sentiu a presença imperiosa da sede. Sua mente trabalhou para lembrar-se da água, e ele teve então um sobressalto. No seu desespero esquecera-se de encher o reservatório de água potável. Uma tênue esperança escorria pelos seus pensamentos quando parou o veículo e foi verificar o que no fundo já sabia. O recipiente estava totalmente vazio. Ao lado do jipe ele olhou desconsolado para o horizonte, e de repente lembrou-se da Estação Meteorológica. No meio do deserto os antigos e inoperantes poços de petróleo haviam sido transformados em Estações Meteorológicas Automáticas, e ele lembrou-se de que estava próximo a um destes postos, aonde sempre havia um oásis e água potável.
Sentiu-se mais animado quando retomou a viagem. Na monotonia da paisagem seus pensamentos voltaram-se para a religião. Hazir era muçulmano e conhecia as leis do Qu'ran, o livro sagrado dos crentes. As ações dos homens tinham sempre suas conseqüências. Na sua mente, o que praticara não era um crime, mas sim uma ação justa, o Jaiz, alguma coisa como uma ação autorizada, e estava muito distante do Haram, a terrível punição divina para uma ação maldosa. "Não há Deus senão Alá, e Maomé é seu profeta", repetia mentalmente.
O jipe avançava na estrada irregular enquanto o Sol aumentava sua intensidade. Hazir sentiu o corpo clamar por água. Lembrou-se dos camelos e de sua incrível aptidão para descobrir o precioso líquido. Se ele pudesse contaria com um animal desses, e não com um jipe, que como todas as máquinas não têm a capacidade de se adaptar aos ambientes. O deserto assemelhava-se a uma praia interminável. A estrada fora construída através da planície que irrompia na continuidade das dunas, mas o vento agindo na fluidez dos grãos de areia a cada instante modificava a aparência do horizonte. De repente, trêmulo nas ondas de calor, surgiu o perfil negro e alto de uma torre de petróleo. Hazir estremeceu de ansiedade. Era afinal a proximidade da água, e afinal a esperança do alívio de sua sede. O ruído do motor, não podendo ecoar nos espaços abertos do deserto, emitia um som estranho a seus ouvidos.
Alguns minutos mais, deslocada no ambiente, surgiu uma cerca de arame, paralela à trilha. Mais à frente ele avistou um enorme portão de metal, e acelerou o veículo, forçando a passagem. De repente, movido pelo vento do deserto, uma larga placa de metal voou através do ar quente e aterrizou à frente do veículo, o qual amassou-a na areia. O jipe avançou e alcançou uma pequena casamata. Ao lado despontava um poço de água e Hazir desceu do jipe. Em um fugaz décimo de segundo ele sentiu a falta de algo, mas sua mente logo ocupou-se com a antecipação do prazer da sede aplacada. Um balde de metal assentava-se ao lado do poço e uma velha roldana foi logo posta a funcionar. O metal, chocando-se com o líquido no fundo do poço, soou como a mais bela melodia aos seus ouvidos. O balde subiu oscilante e ele sorveu sofregamente o precioso liquido. Encheu o galão e ainda com o rosto molhado levou-o ao jipe. Subiu apressadamente no veículo e reiniciou sua jornada.
A satisfação ainda ressoava no seu corpo quando ele começou a sentir uma crescente sensação de mal estar. Um torpor invadiu seus membros e de repente no céu o sol multiplicou-se. Sem controle, a alguns metros da torre o jipe finalmente parou. Hazir teve um pensamento inesperado, e de repente, soube exatamente do que dera falta ao chegar ao poço. Em todos os poços havia sempre um oásis, mas não naquele. Uma suspeita mortal atingiu sua mente, e enquanto tornava-se uma terrível certeza, um desvanecimento físico alcançou-o, e seu espírito vacilou. Viu, ao longe, no horizonte dois vultos que flutuavam em sua direção. Sorrindo convidativamente, Tamanra e Jean vinham em sua direção. Hazir sorriu de volta, enquanto a escuridão invadia sua mente. O ventou aumentou, e a areia do deserto varreu rapidamente a face de uma placa de metal que agora se mostrava ao sol. Era a mesma placa que o jipe derrubara na chegada. Podia-se ler em letras vermelhas a terrível advertência; CUIDADO AGUA ENVENENADA. No interior escuro de sua alma, Hazir podia agora ouvir uma palavra repetindo-se para sempre, Haram, Haram. Ainda deu tempo para ele finalmente compreender. O julgamento final alcançara-o, e então, com uma luminosa resignação, sua consciência evanesceu-se.
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