| ESA #14 - O domingo secreto de Sofia e Erick |
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Aquela tarde de domingo estava nublada, ameaçando chover. Erick estava com sono, ainda cansado da madrugada virada na festa falida de Joaquim, irmão de Joyce, que nem conhecera. Bocejou em pé em frente à porta da lanchonete onde marcara de encontrar-se com Sofia, que estava atrasada.
Sofia vinha apressada pela rua, tinha despistado sua mãe dizendo que ia a um outro lugar, pedindo uma carona até a esquina. Tivera que vir a pé, sob salto alto, tudo isso para despistar a curiosa de sua irmã, que estava dormindo quando ela saiu mas que encheria sua mãe de perguntas, certamente. Usava delicados scarpin pretos, com uma blusinha cor-de-rosa de renda e babados vitorianos junto com uma calça social preta e lisa. Sua bolsa também preta combinava com um laço em forma de flor que usava na cabeça separando a frente do cabelo alaranjado e liso, porque ela não arriscou em ligar o secador para cacheá-los, já que podia acordar Cecília, que além de tudo acordaria de ressaca em um mau-humor daqueles. Parou no estacionamento da lanchonete ofegante e dali avistou Erick. Ele estava diferente de quando normalmente se encontravam: usava jeans escuro, com correntes, de all star preto e uma camiseta também preta sem estampas, por dentro de um casaco com capuz marrom, que parecia um uniforme militar, com muitos bolsos. O visual normal-cosmopolita só era quebrado pela cartola que ele usava na cabeça e seus piercings. Erick sorriu para Sofia assim que ela se aproximou da porta, andando com graça e ajeitando o laço na cabeça. Maquiagem delicada e lábios brilhantes. A garota sorriu de volta e andou até o topo da escada. De salto alto ficava da mesma altura que ele. - Demorei? - Não muito. - respondeu e em seguida beijaram-se brevemente. Sofia tomou a frente entrando na lanchonete e foi atendida por uma mulher baixinha e magricela, que ofereceu as opções de locais para sentar, escolhendo uma mesa mais escondida e reservada no canto. Enquanto andavam seguindo a moça, Sofia segurou a mão de Erick: - Achei que você só tinha calças estampadas. - Eu tenho um monte. - riu. - Eu gostei da sua cartola. - Sofia sentou-se soltando a bolsa pequena em cima da mesa. Erick sentou-se de frente para ela, com um sorriso nos lábios. - Vou querer emprestada pra usar no meu recital. - Isso é fácil. O garçom aproximou-se com dois cardápios. - Querem pedir bebidas? - Ah, sim... eu queria um suco de melancia com bastante gelo e sem açúcar. - Sofia falou. - E uma água com gás pra mim. - Erick completou, abrindo o cardápio. - Gelo e limão? - Não. - Tudo bem. - o garçom anotou os pedidos e depois saiu, dando tempo para que eles escolhessem o que fossem comer. A lanchonete era ajeitadinha, as mesas eram todas com poltronas acolchoadas e a decoração imitava uma casa antiga com rococós e as principais cores eram verde queimado, amarelo claro e laranja, dando um ar mais romântico. Havia vasos decorativos e alguns quadros com pinturas de natureza morta. - Tanta opção que nem sei o que escolher... - Erick desistiu fechando o cardápio. - Você costuma vir aqui? - Às vezes, pra ser sincera. - Sofia o olhou por cima do cardápio de papel amarelo e preto. - Como fica perto do meu curso de música, acabo passando por aqui sempre... e depois do ensaio venho com a Isabella e o Ênio. - Ah, tá... você toca violino, não é? - É... uma das coisas que eu mais gosto de fazer... vai ter um recital em breve, por que você não vai me assistir? - É, vou sim, preciso tomar conta da minha cartola... - debochou. - Que pena, estava tramando pintá-la de cor-de-rosa! - Sofia riu. - Melhor eu ir mesmo! - O que você prefere... carne? Frango? Salmão? Camarão? Nossa, hambúrguer de camarão é novidade... - Camarão não, eu tenho alergia. - Certo... - Pode ser carne mesmo... - Tá... e batata frita? - Meninas não costumam evitar comer essas coisas? - Eu como de tudo. - Sofia deu de ombros. - Nos fins de semana... normalmente estou de regime comendo só salada, mas hoje é domingo. - Pede o que quiser. - Certo. - fechou o cardápio. - Já decidi por você, se tiver qualquer coisa que você não goste ou não possa comer, só avisar. - Tá. - Erick sorriu. O garçom não demorou muito para aparecer quando Sofia abaixou o cardápio fechado na mesa. - Decidiram? - e serviu o suco e a água com gás. - Sim, mais ou menos. - Sofia sorriu sem graça. - Queria uma porção de batata Smile e dois cheese-salada de carne mesmo, com bastante maionese! E junto um milkshake de chocolate, com dois copos, tá? - Tudo bem! - o garçom anotou rapidamente o pedido em um palm e afastou-se logo em seguida, deixando-os à vontade novamente. - Acertei? - Sim. - É, difícil errar com o básico. - É... mas eu podia detestar queijo. - Ou pão. - Ou batata frita. - Ou milkshake de chocolate.... - Ah, isso nunca! - Nunca? - Só se estivesse estragado. - É, estragado acho difícil alguém gostar! - Sei lá, tem uns doidos por aí! - Erick riu e recostou-se na poltrona. - Há quanto tempo você toca violino? - Quase dois anos, não tem muito tempo... mas como adoro estudar, acabei avançando bem rápido... até ganhei um violino novo esse ano. - Sofia sorria com graça enquanto conversava e as vezes mexia nos cabelos para ajeitar os fios, suas unhas estavam pintadas de rosa e bem feitas. - E há quanto tempo você fotografa? - Nem sei, nunca parei pra contar... mas deve ser uns dois anos também. - E como você se interessou por fotografia? - Por acaso... era uma das atividades da escola... - Ah. Você curtiu e continuou. - É... pela inércia e falta do que fazer, eu acho. - Eu insisti bastante até conseguir convencer meus pais a deixarem eu fazer aula de música... já me pagavam aula de pintura e achavam tudo isso meio inútil. - Sofia confessou. - Mas acho que se acostumaram... sofreram muito no início! - Ah, você devia ser péssima! - Era, realmente..! - riu de si mesma. - Mas estou melhorando! - Eu não vou emprestar a cartola se for pra você fazer feio no recital, hein... - Você pode até ir a um dos ensaios pra ver se eu mereço o empréstimo! - Combinado. Nesse momento o garçom chegou com o pedido, servindo os sanduíches, a porção de batata e o milkshake, com um copo extra. Afastou-se rapidamente, - Estão com uma cara boa. - Sofia comentou, abriu o sanduíche no meio. - Menos o tomate... eca. - e tirou o tomate do sanduíche, jogando-o por cima de um guardanapo. Erick deu de ombros e mordeu o seu, com tomate mesmo. O cheese-salada era tão enorme que mal conseguiram tomar o milkshake e as batatas nem foram comidas. Ficaram saciados. - O que está achando da cidade? - Sofia indagou curiosa. - O pouco que vi? Normal. - E o Colégio? - Normal também... os professores são legais. - É, alguns. - Sofia sorriu. - Que faculdade você pretende fazer? - Não pensei nisso ainda, pra dizer a verdade... - Ah! - E você? - Estou em dúvida, meus pais não querem me deixar fazer Artes Plásticas. - Por que não? - Eles queriam que eu fosse... sei lá, médica ou advogada... - Seus pais devem ser chatos.... - Chatos por quê? - Não deixam você fazer nada que quer... - Eles se preocupam com meu futuro, normal isso. - Mesmo assim, não deixa de ser chato! - É, pensando dessa forma... mas os compreendo perfeitamente. Tenho que ter uma carreira que dê retorno na minha vida. Só não sei o que eu poderia fazer, talvez publicidade. - Publicidade parece legal. - Creio que sim! - Sofia sorriu. - Não tem nada que você queira fazer? - Fotografia. - comentou. - É uma das poucas coisas que eu tenho interesse, mesmo... mas não estou pensando nisso agora. Acabei de me mudar! - Puxa, é mesmo... deve estar sendo difícil, sem os amigos... - Não muito. - riu. - Inclusive, acho que amigo mesmo não tenho nenhum. - E o tal do Marcos que você comentou ontem? - Mesmo assim, agora que me mudei provavelmente perderemos contato. - Telefone, e-mail, MSN, Skype... - Sofia enumerou. - Você só vai perder contato se quiser. - Talvez eu queria. - Por quê? - Ontem, depois que você me fez aquele monte de perguntas... - Desculpe. - Sofia fez uma careta. - Percebi que não quero mais aquilo. Não tava muito legal por lá mesmo. - Por causa da sua mãe? - Não só por isso... - O que houve? - Eu não queria que você soubesse, essa é a verdade. - confessou. Sofia fez cara de ponto de interrogação, mas continuou calada, esperando a explicação. - O mais estranho de tudo é que eu normalmente nem me importaria... não era o tipo de pessoa com quem você se envolveria, só isso. - Ah... - Sofia compreendeu o que ele quis dizer. - Mas nunca se sabe... a vida pode surpreender a gente. - É, acredito que sim... - Mas você dizer isso assim, parece sem sentido, quer dizer... é como se você dissesse que eu sou do tipo de pessoa que julga o livro pela capa. E não sou. - É, eu sei. Mas isso me fez pensar, entendeu? - Entendi, só não sei o que você pensou. Erick deu de ombros mais uma vez, seu olhar azul perdeu-se no horizonte. Pensou em como explicar para Sofia o que exatamente queria dizer. Seria sem volta, obviamente. E disse: - Estou dizendo que conhecer você agregou certos valores que eu não tinha... olhei pro caminho que eu estava indo e percebi que não dava pra continuar. Estava passando dos limites. - Não sei se compreendi. - Eu não vim pra cá só porque minha mãe morreu e meu padrasto não quis ficar comigo... - contou. - Foi uma decisão judicial. - Ah... a Guta comentou... um rolo entre seu pai e seu padrasto... que seu pai entrou com uma ação... - Não, não foi bem isso... também não contei a história inteira pra ninguém, não é pra ninguém saber. - Certo, não precisa ficar falando no assunto se não se sente à vontade. - Eu prometi que ia te contar, não é? E como é importante pra você que a gente seja assim tão sincero... tudo bem. Uma hora ou outra você vai acabar sabendo mesmo. Agora faço questão. - E eu fiquei preocupada. - Seria o mais sensato, realmente. - Erick debochou. - De forma simples, considere que meu comportamento adolescente estava causando problemas demais, a ponto de atrapalhar o processo de adoção. - Como assim? - Ah, sabe? Processo de adoção? - Erick voltou a encará-la, Sofia estava com uma expressão que misturava a surpresa e a curiosidade. - Não sou órfão, então meu pai biológico teria que passar a responsabilidade para o Gregory, seria prático e rápido, já havia um pré-acordo entre eles enquanto a minha mãe era viva... - Que horrível, você não conheceu seu pai? - Não... quer dizer, conheci... mas mal me lembro das coisas..! Eu devia ter uns sete anos quando o vi pela última vez e ele já não aparecia muito mesmo... - Então você não conhecia o André? - Não, nem sabia de André nenhum. - Credo Erick, do jeito que você fala... - É, exatamente. Eu vivia a minha vida bem longe daqui! - Certo, mas o que você fez que foi tão grave assim? Em Brasília? - É... foi um pouco. - essas palavras deixaram Sofia com o coração engasgado na garganta. - O Juiz não só recusou a adoção como considerou que seria melhor que eu saísse da responsabilidade do Gregory... com isso tive que vir pra cá. Claro que ele poderia recorrer e prolongar a decisão, mas o fato é que no fundo ele também acha que essa seria a melhor solução. - Ai, Erick, o que foi? - Sofia estava desesperada com tanta preocupação. - Você não vai fazer que nem a Guta que deixou escapar, né? - Assim você me ofende... só não vou ficar brava porque a Guta realmente foi uma má escolha nesse quesito... ela deixa as coisas escaparem mesmo! Sempre foi assim. - É? - surpreendeu-se. - Eu contei pra ela da gente também. - Ai, Erick... não acredito! - Sofia ficou chateada. - Isso porque eu deixei claro que não podia contar pra ninguém! Daqui a pouco todos estão sabendo. O Renato já nos viu ontem...! - Desculpa, não tenho bola de cristal! E também, que merda... não quero ficar namorando você escondido pro resto da vida! - soou irritado. Encarou Sofia que o olhava com uma carinha chateada. - Mas não me leve a mal... é só uma coisa que eu não quero mesmo que ninguém saiba... já é um esforço gigante eu estar aqui contando isso pra você... e só estou fazendo porque concordo com o que disse... se você vai mesmo se envolver comigo, é bom que não seja com uma mentira. - Realmente. - Sofia já não sabia mais se queria saber. Não conseguia nem especular mentalmente uma hipótese do que poderia ser, estava preocupadíssima com o que ele tinha para dizer. - Eu nem sei por onde começar... - Do começo? - É... tá bem. Quando a minha mãe ficou em coma muita coisa mudou. Gregory não passava mais tanto tempo em casa e só nos víamos em ocasiões especiais como festas de família, de amigos, da empresa... ou quando íamos ao hospital... era assim no começo. - disse. - No fim, era comum estarmos em festas diferentes, ele viajava muito... Era comum também eu ficar no mesmo estado que a Joyce estava ontem... ou pior. - Você é alcoólatra? - Sofia se assustou. - Não, sua exagerada! Só estava sem limites... no dia que a minha mãe morreu inclusive, foi a terceira vez que eu estive em um pronto-socorro para receber glicose. - Ai, Erick... - Sofia mexeu em seus cabelos, sem saber como reagir. - É, eu sei, ridículo e irresponsável... afinal, como todo mundo adora dizer, eu tenho só dezesseis.... - Legalmente falando nem pode beber. - Não era como se desse pra proibir... - comentou. - Sempre tive liberdade pra fazer tudo o que eu quisesse. - Não que nesse caso isso fosse bom pra você. - É, talvez... E acho que quando a minha mãe morreu, meu padrasto ficou com medo de que a coisa piorasse... todo mundo achou que eu fosse... sei lá... entrar em depressão ou coisa parecida! Até a minha tia Paula, irmã do meu padrasto, resolveu passar um tempo lá em casa pra ficar de olho em cima de mim. - Compreensível. Estavam preocupados e você ainda ficava dando motivo. - Não que tenha feito diferença... eu continuava saindo com meus amigos... única coisa que com a minha tia em casa, ficava impossível de chegar sem ser notado... e ela era bem chata, confesso... começou a achar que eu me drogava, essas coisas. - Você também procura confusão, viu... - No fim todo mundo achou que era melhor eu sair de lá... - Vir pra cá, você diz? - É. Teoricamente acharam que aqui eu teria menos amigos e conseqüente, menos acesso a festas... Fora isso, meu pai biológico aproveitou a situação para fazer parecer que Gregory não poderia cuidar de mim direito, já que nunca estava em casa. - Entendo. Ele se opôs a adoção? - É. Ainda no início meu padrasto tentou recorrer, mas aí não teve jeito. - E o pré-acordo que você disse que eles já tinham? - Sei lá... acho que nem tem valia nessas horas... - Acho que ele ficou preocupado com a situação. - O que é ridículo, afinal desde que me conheço por gente, ele esteve mais ausente do que qualquer um! - Mas ele é seu pai! - Todo mundo diz isso, mas ninguém entende que ele é um estranho, isso sim! - Tá bem, desculpe! Eu realmente não entendo, meus pais moram juntos até hoje, não tenho parâmetros de comparação.... - Sofia estava tentando ser compreensiva, mas a história toda era um choque para ela. - Aquele dia que você passou mal na escola era ressaca, né? - Era. - Ah. - Sofia não sabia o que dizer. - Pelo menos você percebeu que estava passando dos limites em tempo... - imaginou Erick em um centro de reabilitação ou em uma reunião no AA. - Acho que sim. - Você me assustou... - sentia o seu coração apertado. - Não sei o que pensar ou o que dizer... - Certo... - Erick chateou-se, mas também o que esperava? Seria tão normal se Sofia agora dissesse que era melhor que continuassem só amigos. - Mas enquanto isso... - Sofia ficou em pé e sentou-se na poltrona ficando do lado de Erick. - Vou fazer o que eu posso para ser mais interessante que qualquer festa ou bebida pra você. - Certeza que você é... só não garanto que você vença o milkshake de chocolate. - Mas aí a concorrência é desleal! - riu e o abraçou, beijando-lhe os lábios de forma delicada. Sofia sentiu o seu coração palpitar descompassado, preso em seu peito de forma dolorida. Sua mente ainda processava tudo o que ouvira de Erick, porém procurava fazer o que fora pedido: não julgar o livro pela capa. Se até Joyce que tinha uma vida perfeita podia ficar bêbada de vez em quando, Erick também. Isso não significava que ele possuía algum problema com álcool. Era o que ela queria acreditar, mas sabia que a dor que sentia em seu peito era porque estava com vontade de chorar, ninguém na vida merecia um sofrimento desses... especialmente Erick. Sofia queria ser capaz protegê-lo e de fazê-lo feliz.
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