Caixa de Música Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Nildon da Silva de Figueiredo, em 17-08-2008 21:24
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Todos os dias, às seis horas da tarde, aqueles que passavam frente a casa 63 da rua St. Agnes podiam ouvir uma doce melodia. Parecia uma caixa de música, daquelas muito antigas, onde uma bailarina ficava rodopiando até sua corda acabar. Ninguém se lembrava de jamais ter visto alguém entrando ou saindo dessa casa, apenas pressupunham que tinha alguém pois todos os dias, invariavelmente no mesmo horário, a música recomeçava. Ela durava uns cinco minutos e em seguida, uma luz era acesa no quarto do andar superior e permanecia assim até por volta das dez horas. Isso foi assim durante anos.
Quando completei quinze anos me alistei como voluntário para o esforço de guerra e me lembro do dia em que parti da cidade. Estávamos todos reunidos na estação de trem. A cidade inteira desejando-nos sorte e as mães abraçando, talvez pela última vez, os seus filhos. Todos tentavam falar ao mesmo tempo e isso se somava ao barulho da bandinha no coreto. Mais parecia que éramos celebridades em algum evento social. A cidade parecia enviar os seus filhos para a glória, mas na verdade nos enviava para a morte. Não me lembro do que senti, nem dos rostos que lá estavam, a única coisa que me recordo é que no dia anterior havia ouvido aquela estranha melodia da casa 63. Não sei porque, mas algo me dizia que iria ouvi-la novamente e isso foi o que me deu coragem para ir à guerra. Não preciso relatar os horrores que vi, as noites no frio, o cheiro e a cor da morte nem da felicidade de quando recebíamos cartas - sempre que eu as recebia, ao invés de procurar notícias sobre os que deixei na cidade, procurava alguma menção àquela música. Nunca encontrava. Inúmeras vezes quando não conseguia dormir devido aos barulhos de tiros e bombas ou aos gritos de dor, pensava naquela casa e logo sua melodia invadia minha mente e eu passava a cantarolá-la. Três anos depois voltávamos à cidade, agora sim como verdadeiras celebridades, pois havíamos ganhado a guerra. Apesar do reduzido número de retornados, o clima na cidade era de paz e alegria. Corri ao encontro de meus pais, abracei-os com pressa e me dirigi em direção à rua St. Agnes. Quando cheguei lá, para a minha surpresa, a casa havia sido demolida e no lugar havia uma outra, térrea, com um grande jardim na frente. Nunca mais eu ouviria aquela música que me manteve confortável ao longo da guerra.
Os anos passaram, meus pais morreram, casei, tive filhos, me tornei avô, e, hoje, 60 anos depois da guerra, passo boa parte do meu tempo cuidando dos meus netos enquanto eles brincam no parque. Fico sentado tentando recordar minha infância e os tempos passados, mas, invariavelmente, o que vem é aquela estranha melodia. Hoje é meu aniversário e meus filhos e netos estão preparando uma festa. Os presentes já estão todos embrulhados aguardando a hora em que eu possa abri-los. Um deles em especial me chamou a atenção. Consiste numa caixa retangular, muito bem embrulha por sinal, com uma bela fita e traz o selo dos Veteranos, não há no cartão o remetente nem nenhuma referência que possa me dar uma pista de quem o enviou. Não preciso nem abri-lo para saber o que é. Amanhã, quando passarem frente à minha casa, por volta das seis horas, irão ouvir uma bela melodia.


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
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Comentários (1)
Postado em Aline Dornelles, em 21-08-2008 15:26, , Membro Registado
É linda a sua obra! 
Monstra o quanto você acredita na vida e no 
valor que devemos dar as pequenas coisas!  
Fiquei muito emocionada! 
Parabéns... Tens muita sensibilidade! :) :) :)
 
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