| Impasse do desejo |
|
|
|
Na meia-luz do quarto, sobre o colchão macio, os corpos ainda ardiam de suor. Gotas do amor salpicavam o grosso carpete azulado. Todas as reentrâncias de suas carnes encaixavam-se num mais que perfeito quebra-cabeça humano montado a dois. O vai-e-vem dos corpos, tal como massa de modelar, deixava a imagem das duas figuras como sombras no meio da noite escura...
Podia-se perceber o tórax estufado, os peitos eriçados, as peles lustrosas, as pupilas dilatadas. Os cabelos grudavam à face tal a sofreguidão dos movimentos com que se amavam; intensos e bruscos. Trocavam posições, acariciavam-se e amavam-se mais. Pairava no ar a música dos ruídos que persegue a madrugada até ambos deixarem-se vencer pelo torpor causado pela intensidade vital e animal com que se completaram mais uma vez... Dormem por poucos minutos. Já é chegada a hora de voltarem a outras atividades. Lilo permanecia na cama enquanto Vilma caminhava em direção ao banheiro. Se um espelho revelasse o que vira, mostraria uma mulher descabelada, suada e com um lindo e intenso brilho em cada um de seus amendoados olhos castanhos. A felicidade saltava pelos poros. Abraça seu próprio corpo úmido. Sorri pra si mesma, pensativa quanto àquele que ainda estava debruçado sobre o travesseiro, refazendo-se. Como o amava desesperadamente!! Entra no box e deixa a água escorrer pelo corpo, apoiada à parede azulejada. Recostada, pensa no porquê de tudo. Sente-se tão bem e tão amada! Espalha maquinalmente o sabonete pelo corpo e a água continua a lhe banhar, auxiliando no enxágüe espontâneo. Fecha a torneira, seca os cabelos e o corpo. A cabeça não pára... As idéias borbulham com a mesma intensidade que os hormônios há alguns minutos. Já lá fora, imagina que seu macho deva estar parcialmente recomposto: à beira da cama, a mesma que fora palco da peça amorosa, o rapaz está de moletom e de camisa de malha. Pára na porta do banheiro para notá-lo calçando o tênis e ajeitando o cabelo curto com as mãos. Sente que já podem ir. A mente passeia pelo mesmo pensamento... Ela senta numa velha cadeira e olha para Lilo com o jeito mais ingênuo e puro do mundo! Seu homem parece dar conta de um cansaço que não é físico. Até quando aquilo prosseguirá?? Vilma também não já tem mais força, no entanto não sabe como mudar. Olha para o relógio sobre a cabeceira e percebe que é preciso sair secretamente dali. Mais uma vez! Caminha, caminha... As ruas desertas de uma quarta encobrem seus pensamentos. Vilma não vê a paisagem bem conhecida, apenas enxerga a vida que lhe passa na memória. O caminho não é curto, nem longo; apenas o mesmo. Lilo analisa o apartamento. Restos de vinho ainda estão nos copos, ao lado de umas fatias restantes de pizza. O aparelho permanece ligado com um DVD para ser ejetado. Está desanimado para pôr ordem naquilo. Resolve ir para a varanda onde se esbalda com um copo duplo de água. Ali sentado, mira a casa que Vilma já deve ter atingido. Ela está de volta ao sossego. Pé ante pé, caminha pela sala silenciosamente, pois não tenciona acordar alguém. Vai ao quarto, tateia a camisola e ruma para o banheiro. Despe uma roupa e veste outra. O rosto no espelho não revela mais as pupilas brilhantes; vê-se enrugada e tensa. Apaga a luz e vai até o quarto do filho. Ele dorme... Tateando as paredes, volta ao seu cômodo e joga-se na cama. Fixa o olhar no teto, pouco pretendendo que o sono chegue. Antes dele, uma sucessão de lágrimas aparece... Sente-se impotente para agir... Desejava esplendorosamente aquele homem! Santo Deus, como alguém poderia completar-lhe de tal maneira?! Amava-o escandalosamente. Cobiçava-o ardentemente. Pronto! Não conseguia racionalizar a realidade. Era preciso, diária e constantemente, manter contato com ele. Ah, que momentos felizes... Impossível imaginar tanto prazer... Senti-lo, então, ultrapassava os sentidos e os órgãos. Noite após noite, a caminho do amor, da satisfação plena e do sonho... No entanto, os pensamentos começavam a embaralhar a consciência. A cada dia, na antiga cadeira ou diante do espelho, sentia-se mais velha e mais confusa. E mais culpada. Misturava ações e pensamentos... Desejos e vontades... Esperança e concretude... Sufocava-a o sentimento de vida bipartida, por ser duas em uma... Mas como ela poderia ressurgir definitivamente? O caminho da volta, após o sonho carnal, era sempre o mesmo... Nem curto, nem longo. Já conhecido e bastante trilhado. Olhava o filho, tinha-lhe uma sensação estranha, misto de dor e de revolta. Depois, atirava-se à cama e olhava o teto. Pensava em si mesma como uma sonhadora. Mas afortunada e profundamente mulher! Guto, o filho, dormia mais cedo, sempre sem esperá-la. Seus dias de orgia não combinavam com os da mãe. Davam-se bem. Eram apenas os dois desde que o marido os abandonara há quatro anos. Vilma sabia da vida homossexual do filho. Não havia escolha, precisava aceitar. Só os dois restavam, unidos, amados. Conhecia a vida de namoros de Guto embora nunca um genro amante tivesse pisado em sua casa. Era como saber um segredo e dissimulá-lo diante das amigas, dos parentes e, até, de si mesma. Durante parte do dia, ocupava-se com seu trabalho na gráfica. Durante esse tempo, tinha a mente ocupada. À tarde, podia cuidar da casa, de seus interesses pessoais e femininos e, acima de tudo, aguardava as noites de 3ª e de 4ª quando se encontrava com Lilo. Não havia dependência econômica entre eles. Do rapaz, só percebia que morava bem; era independente e - como Guto - analista de sistemas. Devia ter por volta dos 30, mas não fora a juventude que a atraíra há meses. Lilo era de personalidade encantadora, homem viril e disposto a dar-lhe o que desejava, sem pedir. Era a mulher que se atraíra por um homem idêntico a si, como nem mesmo o marido - com quem casara por amor - fora um dia. O rapaz percebera a simbiose desde o primeiro encontro, num bar, e sentia o mesmo. Também ele aguardava e planejava ansiosamente cada uma daquelas duas noites envoltas em mistério. Secretas para todos. Por isso, cautelosamente programadas e mantidas. E, a cada noite, mais os corpos entrosavam-se num balé erótico em que côncavo e convexo construíam uma escultura totalmente uniforme... Não havia como retroceder. Não havia como ambos racionalizarem os sentimentos. Muitas vezes, Vilma imaginava a vida íntima de Guto. Seus pensamentos vagavam entre imagens das noites sexuais do filho. O que aconteceria sob o teto em que os dois estariam? Como se amariam? Como o filho se sentiria entregando-se àquele homem... E, acima de tudo, como agiam nesta hora de amor? Sua mente - não pesada, mas aflita - forçava-a a analisar a situação e a desejar uma solução. Mas como pensar ou criar uma saída quando os minutos mais e mais mostravam proximidade para aquele encontro em que os instintos gritavam sobre a razão? Era sempre assim, adiava a objetividade; vivia seu impasse encharcado de tesão e gozava sofregamente as duas noites em que rumava para o apartamento de Lilo. No entanto, Vilma sabia da vida bifurcada e supunha que só estava adiando o fim. De repente sentiu como se não pudesse mais esperar, aguardando uma solução agradável do destino, o mesmo que a havia regido até aquele ponto. E, por isso, organizou seu último capítulo. Programou um cinema com algumas amigas e convidou o filho. Contava com a ida de Guto, dentre a rotina dos domingos, mais uma vez, à casa do amante. Assim seria ótimo... Álibi criado ao ser vista no cinema ou no restaurante em que iriam depois. Precisava apenas coordenar o tempo e o plano sem erros. Durante o filme, olhava sofregamente o relógio de pulso. Última vez em que aqueles dois homens se amariam. Tomara que estivessem curtindo, íntimo e intensamente, cada vão movimento. Faltavam apenas uns minutos... Saindo do cinema, chega o momento da ligação premeditada. Ela sabe que está na hora de alguém ligar para o filho. As duas amigas dirigem-se com Vilma ao restaurante a duas quadras do apartamento de Lilo. Guto recebe a ligação e mostra-se totalmente perturbado. Alguém diz que sua mãe está passando mal, e ele precisa ir ao seu encontro. O rapaz fica completamente desnorteado, sai apressado, larga o amante estupefato sobre a cama. Não pensa se vai voltar ou não. Invade o elevador e corre até a moto, no estacionamento do prédio. O tempo bastou apenas para vestir alguma roupa, montar na moto e dirigir para a rua. Um homem, estrategicamente no carro, estacionado ao lado de sua moto, limpando o automóvel, aborda Guto, perguntando-lhe coisas banais. O rapaz alega pressa, não percebendo a intenção proposital de atrasá-lo. Quando acha que se desfez da interrupção, seu celular novamente toca. De novo, um número de orelhão. A mesma pessoa de antes avisa que tudo fora um mal-entendido; Vilma está bem. Ele não precisa ir até ela. O rapaz não percebe que o estranho homem desaparecera. Tudo está tão confuso... Ele, imediatamente, ao lado da moto, liga para o celular da mãe e começa a perceber que, de fato, ela está muito bem. Divertia-se com as amigas; percebe que o primeiro telefonema fora um trote. Do outro lado da linha, Vilma apenas repete, aos ouvidos das amigas: "Você está tão estranho, Guto. Que foi? Que há? Que fez? Com o que se assusta?" Silenciosamente, um outro homem avançou pela porta do quarto de Lilo. Usando máscara de meia e luvas pretas, surpreende o rapaz que permanecia deitado. Extremamente assustado, Lilo tenta entender e escapar da situação, porém é em vão. Trata-se de um profissional. O homem golpeia certeiro e o sangue jorra sem dar chances de sobrevivência. Ele já não mais respira sobre os lençóis empanados de sangue... A faca é imediatamente guardada, mas outra é largada ali, no chão. A cena dura minutos irrisórios. No outro cenário, Vilma continua com as amigas. Olha o relógio novamente. Já se sente bem. Seu celular toca e é Guto, assustado. Ela encerra a ligação e volta a conversar com as amigas, falando sobre o filho e que não entende a vida que leva. Assim que desfaz o susto com a mãe, Guto retira a chave da moto. Só então percebe que está completamente solitário naquela garagem. Dá-se conta de que saíra às pressas do apartamento do amante e que sua volta refaria a noite interrompida. Volta ao elevador e atinge o andar do apartamento. A porta já se encontra destrancada e ele não entende aquilo. Ele vai caminhando em direção ao quarto e se depara com o corpo desnudo de Lilo, ensangüentado, sobre os lençóis. Ao mesmo tempo em que os passos do rapaz aproximam-se da cama, e seu cérebro vê melhor a situação, as sirenes da polícia são ouvidas. Pela vidraça da janela, Guto avista três patrulhinhas e alguns policiais correndo em direção à portaria do prédio. Não dá mais tempo para qualquer reação. Ele senta sobre a cadeira antiga e deixa as lágrimas escorrerem. Os policiais atingem não só o apartamento, mas também o quarto de Lilo. Naquele momento, Guto percebe que não é o socorro de Lilo que chega, mas sua prisão. Somente neste instante se dá conta de que não terá como não ser incriminado. Os policiais aproximam-se do rapaz que não esboça qualquer reação, exceto seu olhar, acompanhando o movimento de tudo. Uns comunicam-se com os outros em ritmo alucinante. Por rádios, chamam ajuda externa ou dão comandos. Cercam e isolam Guto. Alguém encontra a faca no chão, ao lado da cama, e a põe num invólucro de plástico. É igual a uma de sua casa, com que cortam carnes. Vilma saboreia uma fondue de carne e gargalha com as amigas. As três planejam compras num shopping. Ela nunca se divertiu tanto... De vez em quando, olha o relógio. Mas já não há pressa alguma. ... Há três meses, Guto encontra-se naquela cela. Culpá-lo fora tarefa fácil. Presentes por toda a cena, espalhados por todos os cantos do apartamento ou apenas no corpo de Lilo, estavam seu sêmen e suas digitais, principalmente na faca do crime. Não fora visto saindo ou na garagem prédio. Por mais que se esforçasse, seu advogado não encontrara o homem com que conversara na garagem, nem pistas quanto aos telefonemas dados de orelhões... Estava no quarto de Lilo quando os policias chegaram, chorando... O porteiro sabia que era amante de Lilo, os vizinhos o conheciam de entradas e saídas do apartamento. Nada aliviara as suspeitas contra o rapaz. As perspectivas eram pesadas, e rumava para o julgamento sem esperança alguma. ... Em frente ao espelho, Vilma percebia-se mais velha. Algumas rugas tinham aparecido. A imaginação fértil ultrapassava a imagem envelhecida refletida no espelho... De repente, sai em direção ao quarto e apanha a bolsa. Nossa, como o tempo passava rapidamente! Ainda precisa buscar as flores e separá-las em dois montes. Aquele dia seria curto. Além da visita na penitenciária, ainda tinha que ir ao cemitério. Havia um impasse sobre a qual se dirigir primeiro. Estranha sina. Viúva de dois homens. Impasse de dois amores.
|
Nenhum comentário
| < Anterior | Próximo > |
|---|