Estava ela sendo entrevistada na televisão. Alguns diriam que está se expondo demais. No entanto afirmo, está se doando demais. Seu objetivo é informar, romper barreiras, quebrar paradigmas, compartilhar, comemorar e agradecer. Agradecer o milagre de sua vida.
Deixara para trás o cheiro de mato, a pasmaceira, as comadres fofoqueiras, a mesmice, a vida simplória do interior. Capital é sinônimo de sucesso, grandes perspectivas de estudo e trabalho. Seu sonho realizara-se, estava precisamente onde mais desejava estar: entre os ruídos estridentes de um caótico trânsito, naquela paisagem cinzenta do farto vertical concreto armado, num vaivém de multidões, na individualidade da cidade grande.
Mas, ironicamente, foi numa rua tranqüila como aquelas das cidadelas do interior, próximo à sua casa, num sereno dia chuvoso que ela o conhecera. Charmoso, afável, generoso, sedutor, boêmio, um "bom vivant", diria. Vinte anos mais velho. Este era o retrato fiel daquele que viria a ser o grande amor de sua vida. A partir dali, dividiu com ele não tão somente seu guarda-chuva, mas uma vida inteira sobrecarregada de intensa felicidade, entremeados de renúncias, de desprendimento e de profunda doação.
Precisamente dois anos após ter o seu amado, se submetido a uma cirurgia para colocar uma ponte de safena, em virtude de ser necessário passar por uma transfusão de sangue, que o pesadelo começou. Um fantasma ameaçador invadiu sua felicidade e por nove anos com os requintes de uma crueldade que só a ele compete, espalhou preconceitos, deturpou a alma, definhou o corpo e gradativamente minou a vida do seu amor. E juntamente com a devastação que causou, este cruel demolidor de forma indigna tentou roubar dele a capacidade de doar o seu amor. Pois ele, revoltado com sua condição e percebendo que seu momento se aproximava, com palavras grosseiras e humilhações, constantemente se dirigia à sua amada como forma de retribuir suas atenções. No entanto, ela resignada com a situação, pacientemente aceitava seus desmandos, sem a menor discussão. Amava-o de tal maneira que bastava estar ali, acariciar seus cabelos ralos, sentir seu cheiro perfumado, beijar seus olhos cerrados, segurar suas mãos trêmulas e acordar ao seu lado.
Foi durante o retorno de uma viagem a Cabo Frio que ele fizera sua viagem final. Porém, ela jamais imaginara que após sua partida, estaria em rede nacional declarando a todos a bênção que por Deus fora agraciada. Perdoara-lhe todas as ofensas que ele na fase terminal lhe impusera, sua dedicação fora incondicional. Portanto, justificava: "Eu sei que ele me amava. Maltratava para me proteger. Não queria que quando para a eternidade se fosse, com sua falta eu pudesse sofrer. Era uma forma diferente que ele encontrou de demonstrar seu amor. Maltratar para me afastar, este era sem dúvida, o seu jeito tosco de me amar."
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