| Amiga eterna |
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A solidão... Ela não tinha mais do que reclamar; possuía algo que era só seu, que ninguém iria jamais ter igual um dia... Tinha a solidão.
E não era uma coisa qualquer! Era especial por ser somente sua e ser tão ampla, tão interior e tão autoritária. Nunca a deixava sozinha; não! Era extremamente com-panheira. Bastava estender o braço, e ela ali estaria... Para ser honesta, às vezes, a companheira afastava-se um pouco; no entanto, era fácil reencontrá-la perto da ca-ma quando ficava olhando a montanha através da janela... Ela adorava esconder-se no quarto; assim, a menina tinha que ir até lá para ter sua companhia. Ia até ela a fim de falar ou transmitir pensamentos à companheira. Ou mesmo para escrever para ela... Talvez porque sentisse sua falta... Talvez porque já estivesse acostumada à sua eterna presença... O combinado, então, era este: ir ao quarto para procurá-la. Mas era importante ir sozinha. Se ligasse o rádio, em alto volume, e deixasse que o som penetrasse, aí já era tarde! A solidão amiga era, além de tudo, tímida! Nem aparecia; era inútil espe-rar por ela. Não vinha, mesmo que a porta estivesse aberta. Não entrava mesmo e pronto! Quase todas as tardes ou durante as noites, a menina esperava-a. Ela facilmente se aproximava; ouvia a menina e fazia-lhe companhia. A menina, entretanto, ficava di-vidida, pois achava que deveria haver um outro mundo... Talvez existissem outros amigos lá fora.... A solidão não gostou de saber desses pensamentos da menina. Queria que ela só a conhecesse; era realmente muito egoísta e egocêntrica esta moça! Começou a se afastar e a menina, desconhecedora de outro mundo, sentiu-se mais só. Por dias, a companheira fez greve e não apareceu no pequeno quarto. A menina, esperançosa, aguardou por muito tempo. Nada substituía a amiga; como sentia sua falta! Então, teve uma idéia e resolveu pegar sua amiga de jeito. Esquematizou um plano. Imaginou-se outra e fantasiou acontecimentos bem reais. Levou o aparelho de som e a esperança para dentro do quarto. O sonho foi correndo atrás dela. A menina trancou a porta e escutou músicas por muitas horas. Aí, de repente, a solidão – cabisbaixa – apareceu, mexendo na maçaneta. A menina já imaginava quem estava do outro lado da porta... E, ao abrir e rever a amiga anti-ga, ela sorriu. A solidão entrou e, num gesto rápido, a garota apagou a porta do cô-modo. Com agilidade, apertava e esfregava a borracha. Sumiu todinha! A amiga não entendeu direito aquele gesto, pois enxergava a janela... De que adian-tava prendê-la pela porta e deixar a outra aberta? Mas a menina sorria, sabia que não podia apagar a janela. Esta não! Aumentou o volume da música, continuou com sua imaginação real e levou suave-mente a amiga à janela. Mostrou-lhe a linda paisagem que as duas podiam contem-plar dali. A janela ficaria ali, sempre aberta, para que um dia as duas pudessem al-çar vôo, como as gaivotas. Juntas. Voariam juntas, com uma mala recheada de amor, de esperança, de sonhos e de realizações. Iriam, pela primeira vez, voar realmente.
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