| Do outro lado |
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Bettina criara a filha como uma quase princesa. Ao longo dos anos, ia se tornando uma verdadeira nobre. Uma lady total como nos contos de fadas... Fazia parte dos sonhos maternos vê-la casada com um oficial (como era seu marido), com muitos filhos, com uma imensa casa para administrar, com inúmeras empregadas e recepções a organizar.
Foi assim que Diva foi levando sua difícil vida invertida. Por muito tempo... Ouvindo os sonhos de Bettina; vivendo realidades que Bettina havia feito acontecer. Nesse contexto, Diva se perdia. E se entristecia. Como queria mudar tudo... não usar aquelas roupas pré-determinadas, sair tantas vezes e ir àquelas festas por conveniência! Tudo, entretanto, seguia a direção indicada pela mãe: ida às lojas e os inúmeros pacotes, distribuição de sorrisos para os oficiais... Era nisso tudo que ela pensava enquanto se arrumava para mais uma sofisticada festa. Diante do espelho, de roupão e com cabelos ainda úmidos, já imaginava tudo se repetindo: o penteado exuberante, o vestido de incrível beleza, os sapatos encantadores, os acessórios e a maquiagem perfeitos. Depois que estivesse pronta, ficaria parecida com sua antiga boneca - presente de Bettina. Os minutos iam passando e Diva refletia sobre como seria sua rotina se pudesse virar a si mesmo do avesso... Ela não sabia! Estava desanimada, em especial, naquela noite. Já parecia fatigada de ter que ir a mais uma festa, encontrar aqueles mesmos oficiais acompanhados de seus filhos, ser gentil com todos, ficar esperando sinais de Bettina quando avistasse alguém interessante para ela... O barulho feito pela maçaneta da porta e os gritos espantados da mãe, ao vê-la ainda de roupão, a assustaram. Levantou-se e foi preparar-se, da forma mais rotineira possível. Vestiu-se e se mirou no espelho. O mesmo velho espelho de sempre... Ele parecia ler o sofrimento de Diva. Será que possuía a capacidade de virá-la do avesso e notava o que de fato havia em seu interior?! Nunca teve realmente amigos; o espelho era seu único parceiro por todo o tempo. Sentiu o corpo estremecer ao mirá-lo naquele instante. Estava pronta. Não sabia exatamente para quê ou por quê. Mas estava pronta. Sentia enjôos fortes e muito desânimo... O salão parecia realmente repleto. Algumas pessoas dançavam; outras bebiam e sorriam... Era uma festa animada para muitos, com certeza. Sentou-se com os pais em um lugar discreto naquele enorme salão. Ao se dirigir à mesa, ia provocando suspiros e sorrisos tamanha era a sua beleza. Uma imagem perfeita de princesa que ofuscava todas as outras mulheres-meninas. Diva continuava se sentindo mal; a cabeça dava voltas e parecia que o som alto piorava seu mal-estar... O pai se afastou por um breve tempo e retornou com um largo sorriso. Estava acompanhado de um antigo amigo, agora vice-almirante que exibia - orgulhoso - o filho recém-chegado da Europa. Apresentaram-se, e Diva percebeu o encaixe já combinado entre todos. Exceto ela sabia daquilo! O jovem uniformizado, de acordo com sua hierarquia militar, não era nem um pouco simpático; extremamente formal e educado demais a ponto de irritar a pobre Diva. E ele era seu futuro, ela percebia... Tentou dizer um breve “olá” para o vice-almirante e para seu filho, mas não conseguiu. Olhava para o rapaz e apenas sentia sua cabeça girar, seus olhos se fecharem e se abrirem lentamente. Sentia-se como uma embriagada. Bêbada pelo destino, pelo futuro ali tão ao seu alcance (bastaria esticar o braço e já o tocaria...). O enjôo tornava-se mais forte; nada ouvia da conversa entre eles... A música continuava retinindo em sua cabeça. Mirou o rapaz de novo; era estranho se imaginar ao seu lado. Ela tentava desviar o olhar, mas mal conseguia mexer a cabeça que parecia rodar cada vez mais. Diva não conseguia ver coisa alguma, ouvir um ruído sequer. Só o enjôo... Já em casa, diante do velho espelho, não sabia como realmente se sentia. Havia enfrentado aquela terrível noite, passando até pela náusea explícita ao chegar em casa. A mãe delirava com o futuro genro e o pai imaginava todo o cerimonial. A pequena princesa iria virar mulher de um próspero militar... Tudo combinado. Tudo e todos de acordo. Mas a concordância não era real; seu coração não estava ali... “Uma boneca. Uma verdadeira princesa de contos de fadas!!”, era o que a mãe gritava aos quatro cantos da casa ao comentar sobre filha; já vestida para a cerimônia de casamento. Diva, em seu quarto, pediu para que a empregada, a cabeleireira, a costureira e a mãe saíssem um pouco; que a deixassem um pouco só. Alegou a necessidade de ficar se olhando. Como?! Ela não tinha a mínima coragem de mirar o espelho! O espelho parecia interrogá-la ou condená-la... Compartilharam tantas situações e momentos interiores e exteriores... Ele se sentia no direito de cobrar-lhe uma decisão. Puxou-o para perto de si. Sorriu para o amigo. Ele parecia sorrir, sim! Uma idéia havia chegado à mente dos dois. De repente, alguém bateu à porta, e Diva assustou-se. Deixou, sem querer, o espelho cair e viu seu amigo se espatifar no chão. Nada pôde fazer... Porém, ele parecia continuar sorrindo aos pedaços... Chamou a empregada para limpar tudo aquilo. Ninguém deu muita importância ao incidente. Exceto Bettina que se lembrou da antiga superstição acerca dos espelhos quebrados... E Diva, que ficou profundamente triste.... Era seu amigo que também morria naquele momento... Lua-de-mel a bordo de um luxuoso navio e uma longuíssima viagem de três meses... Pareceriam séculos, com certeza. Países diferentes, pessoas desconhecidas, passeios forçados. Diva, agora, precisava de mais força interior para ficar com aquele homem, sozinha - sem o antigo companheiro de confidências; para dormir ao lado de um marido tão estranho; para fingir que o amava... Forças. Ela precisava estar armada para tudo que ainda enfrentaria. As águas que batiam na lateral do navio pareciam fascinantes. Diva até pensou em se entregar a elas. Como eram transparentes e reluzentes, idênticas a seu espelho quebrado! Sempre mascarando a verdade de seu coração, tentava suportar a viagem... Atrasava-se para os passeios, deitava-se tarde... tudo fazia para quase não se encontrar com o marido. Pouco adiantava! Ele sempre estava ali, como as cordas que, com nós, amarram e prendem. Talvez até presas eternamente... Viu uma vidraçaria em uma daquelas vezes que o navio atracou. Havia lindos espelhos, mas um deles lhe chamara a atenção. Tão parecido com o seu... Tinha seu jeito de conquistar... Fixou os olhos no objeto. Ele também parecia reconhecê-la. A identificação foi total! Era enorme, bem maior que o antigo, mas tão semelhante... Para alguns, um espelho pode parecer sempre igual a outros; mas não para ela! Instalou-o na cabina do navio. O marido achava aquilo uma compra estranha... Algo que poderia ser substituído por um objeto mais exótico daquele país por onde, agora, passeavam. Ficava horas mirando o amigo. O tempo passava sem que Diva percebesse. Foi assim que viu uma pequena mancha vermelha no canto esquerdo do espelho. Aproximou-se e tocou no ponto exato. Seus dedos ultrapassaram aquela superfície como se afundasse um dedo em um vasilhame de água. Puxou correndo, porque sentiu um grande medo. Mas havia um fascínio ali difícil de resistir... Tentou, de novo, muito assustada, e novamente perfurou o espelho, desta vez até o pulso. Guardou o segredo para si. O espelho parecia conselheiro, companheiro... E a havia aconselhado a tê-lo como amigo secreto. Já não metia medo, nem a atormentava mais. Parecia que até a acalmava... Refletiu, diante dele, sobre toda a sua vida... Tudo fora tão esquisito: sempre dominada pela mãe, tendo que se portar como uma princesa para atingir o status que a família almejava... Tendo que parecer natural quando estava fingindo... Tendo que achar que era real algo tão ilógico... Atreveu-se um pouco mais. Foi colocando a mão no espelho até senti-la...molhada!! Ei, havia água ali?! Outra vez aquela transparência que apenas sentia em seu antigo espelho... Agora, podia tocar a água!! Seria uma mensagem? Como saberia? Atreveu-se mais. Foi aproximando sua cabeça até penetrar. E viu só um túnel, longo e sinuoso. Retirou a cabeça com extrema agilidade. Era um susto e tanto! Parecia sonho... Pensou estar ficando maluca. Sentiu um certo medo de ensandecer. Durante um tempo, achou melhor evitar contatos com aquele objeto. O marido parecia-lhe, cada vez mais, repugnante. Apesar disso, descobriu-se grávida (ou ao menos supôs estar). As compras e os passeios turísticos tornavam-se mais monótonos ainda... Tinha que haver uma solução para aquilo tudo que piorava. Instigava-lhe o caso do espelho. Na realidade, algo a compelia a continuar penetrando, penetrando... E, um dia, viu lá dentro os cacos... os inúmeros pedaços de seu velho espelho. Eram fragmentos de suas emoções. Eles escorriam por aquele túnel em direção a algum lugar desconhecido. Quis alcançar um deles, mas viu todos irem, escorregando para um ralo. Sentiu-se só novamente! A viagem duraria apenas alguns dias a mais... Teria de enfrentar uma vida semelhante à de sua mãe? Acabaria sendo, afinal, o que ela mais criticara? Pensou que não possuía coisa alguma a perder, exceto o filho que parecia ter no ventre. E o espelho era seu amigo; poderia contar com ele... Então, num momento de impulsividade total, atirou-se em sua direção, como alguém se joga nos braços de um grande e velho confidente. Viu-se diante de um corredor. Os cacos brilhantes no chão pareciam seguir uma trilha. Teve medo. Pensou em não continuar, mas os caquinhos a chamavam. Pôs a mão na barriga e foi seguindo em frente, seguindo um caminho bem longo. De repente, ouviu uma criança gritando: “Mãe!”. Ela se voltou, procurando descobrir de onde viera a voz. Tinha passado por uma porta da qual a criança saía, e não havia sequer percebido aquela abertura. A menina correra em sua direção e a abraçou. Deram-se as mãos e continuaram. Então, o último caco. Diante de uma porta vermelha. Ela hesitou, mas o caco brilhou com toda a sua intensidade. Girou a maçaneta e, surpreendentemente, as duas saíram diante de uma linda praia e, agora, vestiam trajes de banho. Antes que pudesse tentar entender o que se passara, ouviu uma voz masculina que gritava e caminhava na direção delas. “Ei, Vida! Vida! Por onde você andava?” (Ele se aproximou das duas e beijou-as carinhosamente. E dirigiu-se à filha, pegando-a no colo) “Onde você foi com a mamãe? Segredo?”. A criança, ao ser posta no chão, abaixou-se para catar conchinhas, e ele foi ajudá-la. Ela olhou para aquele homem de sunga, tão meigo, que se dizia seu marido. Tão carinhoso com a criança... O sol reluzia sobre os cabelos ruivos dos dois, na areia, à cata de conchas. Tinha a certeza de que jamais o vira, nem a criança. O que estaria acontecendo? Como eles a reconheciam? Por que a chamara de Vida? Olhou para trás, e a porta vermelha tinha desaparecido! O que fazer agora?! O homem levantou-se e a abraçou. Ela sentiu algo mudar. A criança voltou-se para ela e disse: “Mãe, vamos construir com estas conchas um outro castelo? Vai ser como o de ontem?”. Inesperadamente para Diva, ela própria respondeu: “Claro que podemos, meu amor. Mas o de ontem não era muito grande. Vamos tentar fazer um igual ao que seu pai fez no sábado passado. Aquele sim era bonito!” (A menina concordou e sorriu prontamente). O homem também riu e brincou com ambas, afirmando que ele havia se formado em Engenharia e não elas. Todos riram. Disse, como resposta: “Então, vamos mostrar pro papai que também somos engenheiras ou, talvez, ainda estudantes...”. Arriou-se na areia e começou a brincar... Dentro de sua cabeça, se deu conta da situação inusitada e do que acabara de falar com a menina. Como poderia lembrar uma brincadeira do sábado anterior?! Mas aquilo parecia normal. Não ligou. Dirigiu-se ao homem e disse, com uma voz doce: “Davi, pegue um suco de morangos para nós, o.k.?”. Ao que ele, prontamente, respondeu: “Certo, sabia que você pediria seu suco preferido”. “Vamos lá, filha. Precisamos terminar este castelo e não podemos fazê-lo de qualquer maneira. Quando o papai retornar com o suco, a gente mostra nossa construção e vai para o bangalô. Lá, eu conto histórias pra você, depois do almoço, ta bom, Dadá?” (Os olhos de Dadá brilharam...). “E pode ser história de fadas, mãe?” (A mãe continuou amassando a areia com as mãos, movida à vida, e respondeu) “E por que não?”.
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